domingo, 27 de janeiro de 2019

PALMA: A Poesia dos Contextos


Madrugada, é descanso!
Ninguém passa, é repouso!
 A torre, no alto, observa:
o canto da "rasgadeira", 
do pardal, da andorinha. 
Todos dormem, menos as casas,nem a Matriz! 
O sino dorme.
Mas não se cansa de “badalar”, 
de nos chamar à Palavra, 
Palavra que pode nos dá o eterno descanso!
Todos dormem, Menos a praça, 
a Praça da Matriz, 
que fica lembrando 
a presença imanente dos namorados
das famílias, das homilias, dos encontros...!
Tudo fica no inconsciente. 
As pessoas dormem, a praça, não! 
Tudo passa, o concreto, não!
 A cidade fica acordada,
 como quem vigia,
 feito as corujas da noite, 
taciturnas e misteriosas, 
vendo o tempo passar! 

(Davi Portela)

domingo, 21 de janeiro de 2018

COREAÚ

Coreaú, minha terra querida,
Do mesmo nome, te banha um rio,
Onde muito tomei banho e senti frio,
Na aurora da minha vida!...

És tu bela, és forte, mas traída,
Por alguém que há muito, viste nascer,
Mas ainda tem quem te dê guarida,
Para quem te traiu, te ver crescer!...

És tão bela, que trouxeste inspiração,
Para com versos, partidos do coração,
Teu filho humilde te ofertar.

Estes versos são para ti, terra nobre,
De um filho, que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu, nem te trairá jamais!...

Raimundo Leopoldo Meneses Neto (in memoriam)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

SOB O CÉU DA PALMA

Sob este céu
Sob estas nuvens
Meus primeiros dias
Meus primeiros passos
Primeiros amigos
Primeiros olhares
Primeiros beijos
Primeiras paixões
Primeiras ilusões
Primeiras desilusões
Sob este céu
Sob estas nuvens
Onde o luar tinha mais luz
O vento assobiava em forma de canção
Minha casa a um passo de tudo
Meu mundo a alguns passos do nada
Em torno de um vale que me valia tanto
O pouco que tinha era o bastante para o que eu queria
Um banco na praça onde nossos velhos enfeitavam suas estórias
O Grupo Escolar que a professorinha nos davam prova com cheiro de álcool do mimeógrafo
Depois da aula podíamos escolher em que açude ou córrego se divertir
O sol a pino não era obstáculo era apenas um detalhe do cenário
Se sentia calor? não sei estávamos muito ocupados com nossas brincadeiras
Mas existia algo em nossos caminhos que não esperávamos
O tempo, e ele não parou
De repente outros céus, outras nuvens
O mundo era maior do que eu pensava
Havia outras formas de viver
Havia outras formas de querer
Havia outras formas de amar
Tantas mudanças
Tantos passos novos
Tantas pessoas novas
Hoje não ouço o som dos pássaros não vejo a luz daquele luar
Não paro para sentar no banco da praça para ver o tempo passar
Para que a gente cresce então?
Para saber que nossos exemplos não são para sempre
Para saber que viver é tão sério que tenho que parar de rir
Para saber que nossos dias são tão complicados que o simples deixou de existir
Então quero esquecer o tempo e mesmo que a prata pinte meus cabelos
Quero ser criança, sorrir para todos, falar com todos, olhar os velhos álbum de família sem ter saudades
Se isso é loucura, serei então um louco feliz

Alexandre Neto

TEMPO

Passa tempo, passa tempo
Entre horas e dias
Teu destino é passar
Como nuvens que passam no céu azul para nunca mais voltar
Passa tempo, passa tempo
Deixa-me mais velho a ponto de não mais me conhecer nas velhas fotografias
Passa tempo, passa tempo
Escorre como água entre os dedos deixando as mãos lavadas de lembranças
Passa tempo, passa tempo já que teu passatempo é passar...

Alexandre Neto

sábado, 9 de dezembro de 2017

CBD...

Quando menino lá na Palma, fui protagonista de um episódio de CBD. No inverno o gado pastava à solta nos pastos ainda livres das cercas. O inverno era tempo dos insetos dípteros, especialmente os cocliomídeos e os sarcofadígeos (depois eu explico*) agirem sobre os rebanhos. Meu pai recebeu a notícia de que uma novilha amojada estava com uma bicheira feia na anca direita e estava amoitada. Me incumbiu, então, de uma tarefa: 
– Depois que você deixar os bezerros nos córregos, passa na casa do Seu Belchior Conrado (patriaca da família), que nesta hora ele já está de pé; peça pra ele curar a bicheira da novinha que está no pasto dos Altos do Lucas. 
Não entendi direito se Seu Belchior Conrado, um senhor de idade, iria até os Altos pegar a novinha a muque e besuntar a bicheira de creolina. Mas nada perguntei; meu pai não era homem de muitas respostas. Mas logo imaginei a novinha, que conhecia bem, com a bicheira coberta de moscas-varejeiras e de tapurus (tá explicado*). 
Encontrei Seu Belchior Conrado na sada de visita de sua casa, sentado na cadeira de balanço. Dei o recado: 
– Seu Belchior, sou filho do Carneirinho. Ele mandou pedir pro senhor curar a bicheira de uma novinha nossa. 
Seu Belchior levantou-se e se postou no meio da rua: 
– Onde tá a novinha? Onde fica a bicheira? 
Respondi conforme meu pai me havia informado. 
Ele então começou o ritual da cura. Ficou de frente para os Altos do Seu Lucas, levantou o braço direito e gesticulou com a mão, balbuciando alguma reza que não ouvi bem. Fiquei aguardando o Dominus vobiscum et cum spiritu tuo. Para qualquer reza séria, pra mim, coroinha sacramentado, tinha que ter essas palavras que ouvia todo dia na igreja e que não sabia o que significavam. Mas não teve Dominus vobiscum... 
– Pronto. Diga ao Carneirinho que a novilha está curada, amanhã os tapurus já caíram todos e a bicheira tá enxuta. 
Voltei e disse o recado pro meu pai. Dois dias depois a novinha apareceu junto com o gado que vinha todo dia pra rua, sarada. Papai mandou eu agradece ao seu Belchior Conrado a cura milagrosa. Foi assim que presenciei minha primeira Cura de Bicheira à Distância – CBD. 
Hoje, pensando bem, aquela novilha tinha um eficiente sistema de defesas orgânicas. 

Mardone França