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domingo, 25 de junho de 2017

NATALI

Entre um paciente e outro, não parava de pensar nele. Estava na África, em Serra Leoa, como médica de uma ONG humanitária. As crianças não paravam de chorar, o hospital improvisado estava apinhado de vítimas do Ebola. Mesmo em condições tão adversas, não parava de pensar nele. Pensava na última conversa que tiveram. Eram amigos há doze anos, conheceram-se na escola ainda adolescentes. Ela era a melhor aluna da escola, até que ele chegou e lhe tomou o posto. Em algumas semanas eles estavam estudando juntos na casa dela, muito chegados um ao outro. No primeiro encontro a tia hesitou diante da intimidade dos estudantes e Natali a tranquilizou:
– Não se preocupe, tia. Há duas semanas não namoro mais o Pedro.
Havia muitas afinidades entre eles. Eram interioranos, pobres e tímidos. Eram também inteligentes, idealistas e perseverantes. A escola pública era na periferia, estudavam à noite, no intervalo ofereciam-lhes droga; seria improvável eles passarem no vestibular. No entanto, com livros usados dos sebos da cidade, na primeira tentativa, os dois ingressaram na universidade pública. Ela foi fazer medicina; ele, direito.
Ele dava aulas particulares e a ajudava a comprar os livros do curso de medicina. Sempre se encontravam para longas e agradáveis conversas. Ambos se conheciam muito bem. Trocavam confidências. Gostavam um do outro, mas um gostar que, conscientemente, não ousava atravessar a fronteira da amizade.
Num dos encontros, tomaram três taças de vinho e trocaram algumas carícias. Natali pensou em beijá-lo, em contar-lhe um sonho recorrente que ela costumava ter, em perguntar-lhe o que ele sentia por ela, mas a timidez não permitiu. Ao final, ele convidou-a para dormirem juntos e ela, desconcertava, recusou.
Passaram um ano sem se ver. Ele ligou três vezes, ela não atendeu, até que ela resolveu ligar para convidá-lo para a sua colação de grau. Ele inicialmente recusou o convite, disse que estava estudando muito para o concurso da diplomacia e não poderia perder tempo com formalidades; assim mesmo, um dia antes do evento, ligou perguntando onde seria.
Natali era a oradora da turma. No seu discurso, agradeceu a Deus, à tia, à proteção da mãe já falecida, até que chegou nele, a quem dedicou uma homenagem longa e emocionante, que arrancou lágrimas e aplausos. Naquela noite eles beberam vinho até tarde. Ela havia prometido para si mesma que, se ele a convidasse novamente para dormir, ela aceitaria. Mas, nessa noite, ele não a convidou.
Dois meses depois, ele ligou para dizer que havia sido aprovado para o Instituto Rio Branco e iria estudar em Brasília. Ela ficou num misto de tristeza e felicidade e disse que ia começar a residência em infectologia.
No último encontro, ele já estava, como diplomata, intermediando um acordo de paz em Timor Leste e ela, como médica, tentando salvar vidas na África. Nesse encontro, a conversa fluiu como sempre agradável, até que ele falou que estava amando outra pessoa. Natali tentou dissimular a perplexidade e acabou descobrindo que se tratava de uma pessoa bem diferente dela, bem diferente dele. Não conseguia compreender isso. Ele nunca a assumiu e agora estava disposto a assumir uma mulher com dois filhos, mais velha do que ele e ainda importunada pelo ex-marido. O que teria essa mulher? Pensou em se declarar para ele, em beijá-lo, em pedir para que ele dormisse com ela essa noite, em pedir para que ele não casasse com essa outra mulher... Não conseguiu. Desejou boa sorte ao amigo, despediu-se dele como sempre se despedia e foi chorar em sua cama solitária.
Pedro foi seu primeiro e único namorado. Estava com ele há três meses quando Dimitri apareceu na escola. Não se arrependia de tê-lo deixado. Percebeu desde o princípio que sua relação com Dimitri não seria uma amizade qualquer. Sinceramente, ela não acreditava em amizade entre homem e mulher, sobretudo se ambos fossem jovens e bem-apessoados. O tempo, porém, insistia em negar sua convicção. Dimitri tinha à época quinze anos; ela, dezesseis. Quando o viu pela primeira vez pensou:
– É ele!
Não conseguia compreender como um sentimento surgido de forma tão arrebatadora não havia ainda resultado em namoro, ao menos num namoro formalmente declarado. Depois de um começo animador, de um afago na casa da tia, os encontros largaram o rumo do namoro e seguiram a tendência da amizade. Quando no ano seguinte ele deixou a escola, os encontros foram aos poucos minguando. No segundo ano, em escolas diferentes, viram-se pouco. Já no terceiro ano, as conversas se amiudaram. Era época de vestibular. Combinaram de estudar algumas vezes juntos, de trocarem apostilas, de comentarem o livro de cabeceira. Falavam-se no telefone até tarde.
Não esquecia o dia em que foram à praia. Pela primeira vez viu Dimitri sem camisa. Era magro, não tinha músculo, o tórax pálido parecia não ter visto sol há alguns anos. Ele se pôs a ler um livro, sentado na areia, erguendo a cabeça volta e meia para contemplar uma jangada distante, enquanto ela ainda decidia se ficava ou não de biquíni. Admirava a serenidade do amigo, a sua discrição, o respeito com que ele a tratava, às vezes até demasiado. No fundo, esperava um pouco mais de ousadia por parte dele. Ele que pedisse para ela ficar de biquíni. Se não pediu é porque não estava interessado em vê-la. Ficou mesmo de calça e camisa. Abriu um livro e também se pôs a ler.
Anos depois, Dimitri confessou que estava ansioso para vê-la de biquíni e que pensou em pedi-la para tirar a roupa, mas achou que a ousadia seria mal interpretada e preferiu não tocar no assunto.
No final de um dia terrível, em que duas crianças e um adulto haviam sucumbido à epidemia, Natali recebeu no acampamento o convite para o casamento do amigo. Ficou pálida, pensou em rasgá-lo, em jogá-lo na fogueira, mas se conteve e, antes de amassá-lo, uma lágrima caiu sobre o nome do amigo. Naquela noite não conseguiu pregar os olhos. No meio da madrugada, insone, sentou-se no terreiro deserto, iluminado apenas pelo céu estrelado, e chorou copiosamente, como nunca havia chorado antes. Aquilo devia ser um pesadelo. Não podia acreditar. Dimitri não era apenas um amigo. Era muito mais do que isso. Pela primeira vez sentiu ciúme, sentiu ódio de uma pessoa cujo nome nem chegou a ler. Não teria coragem de ir àquele casamento. Não conseguiria suportar. Em um mês o seu Dimitri estaria casado com outra.
Perdeu todo o prazer no que fazia. Passou a dedicar-se mais ao trabalho para compensar a repentina falta de atenção. Não conseguia comer. As noites alternavam-se entre a insônia e os pesadelos com o casamento. Ninguém sabia o que estava acontecendo com ela. Com a imunidade baixa, não poderia desafiar o Ebola. No sétimo dia de suplício, resolveu ligar para Dimitri e pedir um encontro de emergência.
O encontro não pôde ser em Fortaleza. Dimitri estava de passagem em Joanesburgo, sem tempo, mas aceitou ir a Freetown falar com a amiga. Natali foi apanhá-lo no aeroporto e à noite foram a um restaurante às margens do Atlântico.
– Recebeu o convite? – perguntou Dimitri.
– Sim. – respondeu Natali.
Natali havia preparado um longo sermão para o amigo, com a ideia de extravasar todos os sentimentos represados há muito tempo em relação a ele. Logo que o viu, porém, deu-se conta de que uma declaração dessa natureza estava além das suas forças.
– Como vão as coisas, Dimitri? O trabalho, a noiva...?
– Suponho que você não me trouxe aqui para falar do meu trabalho, não é mesmo? Quanto à noiva, não sei de que noiva você está falando...
– Ora, a senhora dos dois filhos, perseguida pelo ex-marido...
– Não estou mais com ela...
– Nossa! Então... Bem, mas convidei-o apenas para dizê-lo pessoalmente que não vou ao casamento!
– Não vai?!
– Não vou! Tenho meus motivos para não ir. Na verdade, tenho muitas coisas para dizê-lo, mas somente consigo afirmar que achei uma afronta aquele convite.
– Uma afronta?
– Uma afronta!
– Nossa! Pensei que você iria gostar.
– Desde que recebi o convite, estou sem conseguir comer e dormir. Ando dispersa, não sei como estou indo ao trabalho.
– Não era para tanto. Pensei que você gostasse de mim...
– Claro que gosto, mas gosto de um jeito que você talvez não entenda.
– Acho que agora, definitivamente, estou entendendo.
– Se tivesse entendido não teria enviado aquele convite.
– Era apenas um convite! Não precisava convertê-lo num drama.
– Um simples convite? Depois de doze anos, Dimitri, pela primeira vez estou tendo a sensação de que você é uma pessoa fria.
– Eu? Frio?
– Desculpa, Dimitri! Sei bem que você não é frio, muito pelo contrário. É que gosto muito de você e aquele convite me abalou bastante.
– Não estou entendendo nada, Natali. Você leu mesmo o convite? Tudo bem que o recusasse, mas não havia motivo para abalo.
– Havia sim, Dimitri. Os motivos estão guardados no fundo do meu ser.
– Você é uma pessoa muito misteriosa, Natali. Pensei ter descoberto seu segredo. Enganei-me redondamente. Pensei que você me amasse.
Natali marejou os olhos de lágrimas e, desconcertada, falou:
– Eu te amo, Dimitri!
– Me ama e recusou o convite...
– Recusei o convite exatamente porque te amo. Não suportaria ver você casando com outra.
– Natali, você leu o meu convite?
– Já disse que li.
– Tem certeza que leu?
– Confesso que caiu uma lágrima em cima do seu nome.
– Qual é o nome da noiva, então?!
– O nome da noiva? Depois que li o seu nome entrei em pane.
– Hum. Acabei de descobrir o seu segredo. Você tem o convite?
– Acho que rasguei, joguei na fogueira, não sei ao certo...
– Espere, tenho um aqui, você poderia lê-lo?
– Por favor, Dimitri, não me faça sofrer mais!
– Natali, peço-lhe apenas que leia o nome da noiva, por favor.
Natali tomou o convite, hesitou antes de lê-lo, mas, de repente, uma luz enorme invadiu o seu ser, quando viu, com os olhos cheios de lágrimas, que o nome da noiva escrito no convite era: Natali.

Eliton Meneses

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

REFÚGIO

Percorreu a rua do Peão no silêncio do meio-dia, fez a curva no oitão da Maria Preta, evitando o monturo vizinho e alcançou, depois de alguns passos, a água fresca do rio. Sentou-se na beira, avistou à distância duas lavadeiras nas pedras e mais perto um menino pescando piaba com uma garrafa furada. Molhou os pés e o rosto, ergueu-se novamente e resolveu atravessar o rio. Não precisou nadar. A água não lhe chegou a cobrir os ombros. Na estreita praia de areia formada do outro lado, contemplou a cidade sob uma perspectiva diferente. As cercas dos quintais à esquerda, as moitas copiosas que acompanhavam o leito até o campo Beira-rio e um extenso cercado que dava nas ruínas da Ponte Velha. Esgueirou-se na curva da vazante e seguiu no estreito caminho ainda não submerso até alcançar o imponente juazeiro. Sentou sob a sombra da árvore, provou dois juás maduros, apreciando a silhueta distante da Meruoca e, depois de um salto da ribanceira para um mergulho no rio, embrenhou pelo caminho da Raposa, quase todo coberto pelo mato que crescia no inverno. Passou pelo primeiro cajueiro, deteve-se um pouco no segundo, sentado num galho para ouvir um sabiá que cantava próximo, e seguiu adiante, espiando o legume que crescia vigoroso em cada cercado, embalado pelo aboio distante do vaqueiro e pelo mugido de esperança de uma rês...

Eliton Meneses
Membro da APL

quinta-feira, 31 de julho de 2014

SERTÃO


Nessa terra ressequida, 
Tantas vezes esquecida, 
Pouca água cai no chão; 
De um povo resistente, 
Desde muito padecente 
Das agruras da estação. 

Gente pobre oprimida, 
Generosa e destemida, 
De Luiz, rei do Baião; 
Do forró, da simpatia; 
De prece e de valentia: 
Padim Ciço e Lampião. 

Terra do roceiro bravo, 
Da peleja qual escravo, 
Do vaqueiro de gibão. 
Terra de tanta poesia, 
De viola e cantoria, 
Da festa de apartação. 

Terra do caboco pardo, 
Agarrado em duro fardo 
Nas lidas da plantação; 
De um povo inteligente, 
E de mulherio decente; 
De Lunga e Frei Damião. 

Berço da mãe heroína, 
E da doce cajuína, 
De Alencar e de Tristão. 
Terra de bastante glória, 
A mais fértil da história, 
Conhecida por Sertão.

Eliton Meneses

sábado, 31 de maio de 2014

CAÇA E PESCA


Zé Mago e Taboca foram pescar. Na bicicleta surrada seguiram rumo ao açude do Cunhassu. Atravessaram o rio na canoa de seu Valto, pararam um instante no regato cheio, cruzaram o açude do Meio, o campo do Raimundo Abílio, o Pereirão frondoso... Quase ao anoitecer, chegaram na porteira de seu Tarcísio. 
Bateram palmas, mas ninguém respondeu. 
– Ó de casa?! 
O único som que ouviram foi o das galinhas e dos perus no quintal. 
Seu Tarcísio, a mulher e os oito meninos tinham ido à rua para a missa da Semana Santa. 
Com a casa de apoio fechada, os pescadores não poderiam pernoitar no Cunhassu. Dormir ao relento era coisa para pescador antigo. O jeito era bater água até a lua clarear e ir embora logo em seguida. 
Armaram as redes, percorreram o açude em câmaras de ar, bateram na água com varas de pau para acuar os peixes, esperaram meia hora...
Apesar da disposição dos pescadores, a pouca experiência de ambos, o vento forte e o claro da lua tornaram a pescaria um trabalho vão. Depois de três tentativas, não conseguiram nada para além de uma curimatã e um piau miúdo. 
Refizeram desapontados seus petrechos e, já prontos para regressarem à rua, acorreu a Zé Mago a ideia de não voltar para casa com um único piau de uma empreitada tão árdua. 
Sem que Taboca percebesse, Zé pulou a cerca do quintal de seu Tarcísio e, com pouco, reapareceu com duas galinhas nas mãos. 
Acocorou-se na beira d'água, quebrou-lhes os pescoços e as despenou ali mesmo, para espanto de Taboca.
Acomodadas as aves no garajau, os amigos partiram confiantes rumo à Palma, depois de combinarem que cada um ficaria com uma galinha e um peixe. 
A viagem de regresso seguia tranquila até que os pescadores esbarraram na estrada com seu Tarcísio, que vinha com a família de volta da missa. 
– Oba, meu amigo Taboca! De onde vocês vêm? Perguntou seu Tarcísio. 
Antes de Taboca responder, Zé Mago atalhou às pressas: 
– A gente estava caçando pra cá do Araquém, seu Tarcísio. 
– Ah, e essas galinhas no cesto?! 
– Não, seu Tarcísio, são duas nambus! 
– Nambu?! Desse tamanho?! Nunca tinha visto! 
– É que são nambu zabelê, seu Tarcísio! 
Zé Mago sabia que nambu zabelê era ave de mata muito distante, mas a despista improvisada pareceu convencer seu Tarcísio, que se despediu animado e seguiu confiante sua caminhada, para alívio dos pescadores.

Eliton Meneses

sábado, 5 de abril de 2014

INVERNO



Um raio na noite escura 
Alumia a linha da serra; 
A chuva escorre na terra; 
O inverno espraia fartura. 

No vale renasce a verdura; 
O drama da seca encerra. 
No quintal o cabrito berra, 
Do mato recende ventura. 

O sertão de chofre recria: 
O sapo cantor da ribeira; 
Borboleta a voar no oitão. 

 Na roça campeia euforia; 
Tem legume na capoeira; 
No chiqueiro, gordo leitão.

Eliton Meneses

segunda-feira, 3 de março de 2014

MÁSCARA


No canto do quarto, sentado sozinho, 
Repara no espelho um desfile passar: 
Os sonhos se foram num redemoinho, 
Não há mais menino no rio a brincar. 

Foi falsa esperança, velhaco adivinho: 
Não basta o sereno p'ra terra invernar. 
O logro não veio, o agora é mesquinho; 
O porvir segue ainda uma tela a pintar. 

Na larga avenida, desce em desalinho 
O bloco mambembe, num lento pisar. 
Esgueira-se entre a poeira e o espinho, 
A máscara que ensaia seu tosco cantar. 

No galho lá fora, canta o passarinho: 
A vida se espraia p'ra além do espiar. 
Há rastro escuso no longo caminho, 
Oposto ao destino que intenta chegar. 

Éliton Meneses

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

HOMO CACTUS


Sou um cardeiro de asa,
Uma planta desfolhada,
Com raiz atada ao chão.
Tenho caule feito brasa,
De rama encarquilhada
E espinhos de proteção.
O meu leito é cova-rasa;
Sorvo seiva na alvorada;
Lanço flores na estação.
Fiz na pedra firme casa;
Cedo fruto à passarada;
Canto a vida sem refrão.
Na seca que tudo arrasa,
Sou criatura arretada:
Homem-cacto do sertão.

Eliton Meneses

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

NOITE PALMENSE

No rádio tocava uma música animada. Passava da meia noite e a insônia persistia. Pela brecha da janela observava um pedaço de rua deserta. Um coral de cachorros latia nos arredores. Um galo precipitado já anunciava a manhã distante. O locutor da rádio entrevistava um novo cantor baiano. No intervalo, a vinheta soava baixo na madrugada calma coreauense. 
– Sociedade, Salvador, Bahia! 
Deitado na rede da sala, com apenas doze anos, esperava ansioso o relógio marcar quatro horas para reunir os colegas da sexta série do Vilebaldo Aguiar e irmos para a educação física. 
Nem o balanço da rede conseguia atrair-me o sono. Algo me irritava a garganta. Na tentativa de aliviar o incômodo, forcei as cordas vocais e me saiu um som gutural estranho, repetido algumas vezes. 
Uma voz grave comentou no quarto do lado: 
– Leda, esse menino 'tá meio abestado! 
Não dei cartaz. Segui pela madrugada procurando o sono, sem conseguir tirar da cabeça a aula de educação física, resumida basicamente numa partida de futebol na quadra do Grupo. 
Do relógio da praça soou uma batida. Devia ser meia-noite e meia; uma da manhã, talvez; ou mesmo já uma e meia. Seria difícil jogar sem ter pregado os olhos durante a noite inteira. 
Às três horas, em ponto, a banda de música quebrou a monotonia da rua, tocando Luiz Gonzaga, Roberto Carlos e Ravel em frente à casa de algum aniversariante. Chico Irineu no trompete e Canarinho no trombone aplacaram-me a inquietação. Desliguei o rádio. Menos tenso, tentei cochilar. 
Acordei com alguém batendo na porta. Era Raimundinho, Nonon e Chico. 
– Etim, 'bora pra física! 
Seguimos pela rua lateral. Despertamos Delmon, Pitica, Louro, Zoélio e Celino; depois, subindo pelo Rabo da Gata, chamamos Marcinho e Jean e partimos rumo à praça, onde já havia outro grupo. 
Depois de uma provocação insolente, Chico correu, em volta da Coluna da Hora, com uma pedra na mão, no encalço do irrequieto Jean. 
Como ainda era quatro e meia, fomos alguns à mercearia do Chico Cristino, tomar um café quente com tapioca de coco. Na volta, acordamos professor Ivan e, enfim, caminhamos para o futebol. 
Antes do início da partida, professor Ivan nos pediu alguns exercícios. Dez voltas na quadra miúda, algum alongamento, umas flexões abdominais... Nada para além de dez minutos. 
Jogávamos até às seis, quando a bola não se perdia pelos quintais vizinhos depois de um chute mais forte. Com o apito final do professor, seguíamos para casa pelas ruas estreitas da Palma, que já despertava lentamente para o novo dia.

Eliton Meneses

domingo, 1 de dezembro de 2013

ONDAS


Ó vagas do mago vidente; 
Fúria inclemente do mar; 
Sinal de abismo iminente; 
Tropel de imenso cismar! 
De penas, a terra coberta, 
Num sopro irá se afogar; 
Ressoa o clarim de alerta: 
No cosmo, voraz renegar! 
O tempo é estrela cadente; 
Em terra anúncio de morte; 
Nos sinos, há lúgubre soar. 
Ao homem, no fim aparente, 
Lhe resta o bafejo da sorte: 
Da corrida aprender a voar.

Eliton Meneses

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

PATRIA LATINA



Las venas todavía abiertas
Hacen la misma pregunta:
¿Hasta cuando, libertad?
¡O nuestra patria latina,
Río corriente de sangre,
Ansia de canto general!
Fusión de tantos colores,
Tierra del tango malevo,
Herencia de mismo crisol.
Herida cubierta de flores,
Llevaron las hojas de oro,
Volando como el gorrión.
¡Condor del cielo latino,
Hay vuelta en la esquina,
Sea el trino del ruiseñor!

Eliton Meneses

terça-feira, 24 de setembro de 2013

COREAÚ - 143 ANOS


Ó vale outrora verdejante; 
Do voo rasante do urubu; 
Ó terra de pássaro errante; 
Do último sopro do boi-zebu. 

Ó várzea um dia deslumbrante, 
Povoada pelo intrépido Arariú, 
Das palmas do negro retirante; 
Da fazenda do riacho Coreahu. 

No horizonte, a silhueta da serra; 
Em setembro, há aroma de caju; 
O algodão se foi, restou na terra: 
A carnaúba e o voar do sanhaçu. 

Torrão de tanta história passada, 
De gente que vaga de norte a sul, 
Que um dia se foi na tua estrada, 
Mas nunca esqueceu teu céu azul. 

Eliton Meneses

sábado, 31 de agosto de 2013

AONDE VOCÊ QUER CHEGAR?


Aonde você quer chegar? 
Com o traseiro sentado na poltrona 
E a boca aberta para o ar! 
Se você não lê o que eu escrevo, 
Nem me revela o que tem a falar! 
Aonde você quer chegar? 
No cume alvo do Himalaia, 
Ou nas fossas sombrias do mar? 
Se há um rio caudaloso a ser cruzado, 
Mas não há ponte nem você sabe nadar. 
Aonde você quer chegar? 
Sem um livro para ler do seu lado, 
Sem uma mão amiga a lhe consolar. 
Se os seus amores estão distantes, 
E as pessoas do lado esqueceu de amar. 
Aonde você quer chegar? 
Se o vento lhe leva como uma folha, 
E a sorte não lhe resolveu bafejar. 
Se a vida é uma estrada de sonhos, 
E lhe falta a coragem de caminhar. 
Aonde você quer chegar? 
Se você não estende a mão amiga, 
E a alheia miséria lhe faz gargalhar. 
Se você se esconde da tempestade, 
E se ufana quando começa a clarear. 
Aonde você quer chegar? 
Se não engana sequer a si mesmo, 
A quem mais você pensa enganar? 
Se a um passo encontra o abismo, 
E o paraíso é tão difícil encontrar! 
Aonde você quer chegar? 
Se a vida não foi o sonho de criança, 
E o tempo não lhe permite mais voltar. 
Se não conseguiu melhorar o mundo, 
Ao menos a si mesmo procure mudar! 

Eliton Meneses

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

VÊNUS DE PEDRA



A fria moçoila, sentada na praça,
Olhava distante uma rua sem fim.
De rara beleza, talvez espanhola;
 Na tarde de sol, vestida em cetim.

 Vênus moderna e ensimesmada,  
Espraia fascínio por todo confim.
Idílica morena, coração de pedra;
Candura aparente de um serafim.

Fosso assombroso de indiferença;
Espinho elegante de morto jardim.
Encara com asco a mão do pedinte,
Embalde no peito a cruz de marfim.

Furtiva beldade, covil de soberba,
No palco da vida não há arlequim.
Antro inumano, sumiu contrafeita;
Do fruto somente a casca chinfrim.

Eliton Meneses
Membro da APL

terça-feira, 16 de julho de 2013

ARRIVEDERCI ITALIA!

Quando iniciamos o curso de italiano, prometemos que visitaríamos a "Velha Bota" ao final do curso, cuja duração seria de três anos e meio. Mais de dez anos depois, finalmente, a promessa foi cumprida. Auri, minha amada companheira, também fez todo o curso comigo e estava ávida para por em práticas algumas noções da língua de Dante. João Pedro, nosso filho, com cinco anos e meio de idade e muitas milhas percorridas, estava preparado para uma viagem de fôlego à Itália e especialmente curioso para conhecer o jardim zoológico de Roma. 

Depois de uma rápida conexão em Lisboa, chegamos a Roma, num agradável verão de sol que clareava das cinco da manhã às dez da noite, algo demasiado estranho para quem habita próximo ao equador. A exuberância majestosa da "cidade eterna" surpreendeu-me. A despeito da crise econômica que assola alguns países da zona do euro, inclusive a Itália, Roma não nos revelou disparidades sociais consideráveis. A cidade segue imponente seu curso às margens do Tibre, bela, limpa e organizada, preservando seu enorme patrimônio histórico e artístico numa perfeita simbiose com os novos elementos da modernidade. 

Nas ruas centrais da cidade, os poucos pedintes pareciam imigrantes. No mercado informal, predominam os asiáticos, especialmente indianos e bengalis, e africanos subsaarianos. A alta taxa de desemprego no país parece não ter feito os italianos apelarem para o subemprego... 

Dado que a cidade estava repleta de turistas do mundo inteiro, com filas enormes em todas suas atrações, não havia como deter o passo em alguma especificamente. O jeito era dar uma vista d'olhos superficial naquelas que fosse possível visitar. No dia seguinte ao "city tour", finalizado no charmoso bairro de Trastevere, fomos ao Vaticano, conhecer a Praça de São Pedro, os seus museus e a Capela Sistina, inegavelmente um dos maiores patrimônios histórico-culturais da humanidade, independentemente do pendor religioso. No outro dia, ao meio-dia, comparecemos ao Angelus, com o papa Francisco, e depois fomos ao Bioparco, o jardim zoológico da cidade, para uma programação infantil para o João Pedro, e, no final do dia, à fantástica Fontana di Trevi, jogar uma moeda e fazer um pedido, como manda a tradição. 

Na segunda-feira partimos de ônibus para uma maratona de cinco dias pelo centro-norte do país. Nos campos férteis e densamente habitados do rico interior italiano, muito cultivo de girassóis e de tantas outras culturas agrícolas. Cruzamos planícies, vales, o final dos Alpes e os Apeninos. Em cada colina, um casarão simpático no centro de um terreiro largo pontilhado de enormes rolos de feno; em cada curva, um povoado aconchegante encravado no alto das montanhas, algumas vezes ainda cercado por muros medievais. Paisagens definitivamente encantadoras. A primeira parada foi em Florença, cidade berço do Renascimento, movimento cultural que representou a redescoberta do homem e do mundo; capital da Toscana, região cujo dialeto (o fiorentino) resultou na língua italiana moderna; terra de Dante Alighieri, de Leonardo da Vinci e de Michelangelo... Uma cidade que respira cultura, que abriga o Duomo (catedral, em italiano), a mais impressionante obra de arte que os meus olhos já viram; a Ponte Vecchio, sobre o rio Arno, a única que resistiu aos bombardeios alemães da 2.ª Guerra Mundial; muitos museus, um centro histórico exuberante, dentre inúmeras outras atrações, como a famosa estátua de Davi, de Michelangelo. 

No dia seguinte, rumamos para Nice, no sul da França, passando por Pisa, com sua torre inclinada, um colossal campanário em estilo românico, convertido num dos símbolos da Itália, e parando para o almoço na pitoresca Santa Margherita Ligure, às margens do Mediterrâneo, na Riviera Italiana, próxima à grande e desajeitada Gênova (possível terra natal de Colombo). A região litorânea de Ligure é de uma beleza estonteante, muito embora o mar mais pareça um grande açude sem ondas e a praia seja formada por um cascalho afiado que pode até ferir a sola de pés descuidados. Passamos horas depois por Mônico, pelo Casino de Monte Carlo, pelo túnel por onde passa a corrida de Fórmula 1, por algumas lojas de etiquetas afamadas, cujos clientes forcejam por ostentar muito luxo, riqueza e arrogância, imaginando-se a crème de la crème da raça humana. A singular elegância do Principado de Mônaco de certo modo acaba ofuscada pela empáfia de muitos de seus personagens (ricos, inconsequentes e indiferentes), um autêntico insulto à miséria que grassa mundo afora.

Chegamos a Nice já a altas horas, exaustos e famintos, mas, como os restaurantes já haviam fechado as portas, tivemos que nos conformar só com sucos e biscoitos. Acordamos bem cedo na terra natal de Garibaldi (à época incorporada ao reino da Sardenha), recusamos a caminhada na Promenade des Anglais e seguimos, ainda sonolentos, para uma visita a uma fábrica de perfume nos arredores. 

A próxima parada seria Veneza, no Mar Adriático, do outro lado da "Velha Bota", depois de muitas horas de estrada. Antes de chegar à Sereníssima, tangenciamos a cidade de Verona, cenário principal da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare. 

Veneza é uma maravilha da humanidade, uma joia singular permeada por uma aura misteriosa de puro romantismo. Os canais estreitos, o casario monumental, a Praça de São Marcos, as catedrais góticas, as gôndolas, os cristais de Murano, as máscaras do famoso carnaval, a luta permanente do engenho e da arte humana para resistir à força poderosa da natureza... Veneza é, enfim, uma cidade mágica, que nos comove e arrepia. Todo ser humano deveria ter o direito de ir ao menos uma vez na vida em Veneza, de passear de gôndola em seus canais, ao som de "'O sole mio", de caminhar por suas pontes, de contemplar o seu pôr do sol... 

Tivemos que deixar La Sereníssima para ir a Roma. No caminho, uma parada em Ravena, para visitar o túmulo de Dante Alighieri, o maior de todos os poetas, autor da Divina Comédia, e outra em Assis, terra de São Francisco, para pagar uma antiga promessa e para tocar na "luce che illuminava il mondo". Num intervalo de menos de três horas, toquei em Dante Alighieri e em Francisco de Assis. Não consegui acreditar, nem conter a emoção. Assis é uma terra santa, onde paira uma forte aura de paz e de amor. Não há como tocar no túmulo do maior de todos os santos e seguir de olhos enxutos. Salve, ó Francisco! Grazie per tutto! 

Novamente em Roma, no dia seguinte fomos ao Coliseu, exuberante e famigerado Amphitheatrum Flavium, palco central da política do panis et circences da Roma antiga, cujos espetáculos resultaram no sacrifício de mais de um milhão de pessoas. Do lado, o Arco de Constantino e as ruínas do Fórum Romano, resquícios da grande civilização antiga que nos fez aprender muito do que atualmente sabemos. 

Os dez dias de Itália deixariam saudade e um aprendizado inesquecível. No geral, os italianos foram educados, solícitos e até simpáticos, malgrado o que comumente se fala. Talvez saber um pouco do idioma tenha ajudado. A resistência do João Pedro surpreendeu a todos. Na excursão pelo interior da península, era a única criança no ônibus e, ainda assim, portou-se melhor do que muitos adultos. Não comeu tanto, mas o suficiente para suportar os dez dias de maratona, bebendo muita spremuta di arancia (suco de laranja). Comemos bastante massa (realmente o italiano come pasta no café da manhã, no almoço e no jantar), tomamos uns bons vinhos, algumas birras (cervejas) e muita spremuta di frutta. Compramos muitas lembranças, algo de Dante, Petrarca e Boccaccio no original, alguns agrados para Auri, que deu aula de organização; outros para João Pedro, pelo comportamento irrepreensível, só não encontramos algum livro de Bobbio e de Del Vecchio, mas tudo bem, fica para a próxima! 

Arrivederci Italia!


Eliton Meneses
Membro da APL

sábado, 29 de junho de 2013

DONA RAIMUNDA

Trancada no quarto escuro, enxugando o líquido purulento que escorria pela perna doente, Dona Raimunda recordava a última visita do seu pretendente garboso. Não acreditava na conversa do povo. O viúvo Tibério acabara de visitá-la. Estivera em sua calçada, escorado na meia-porta, entabulando uma prosa agradável. Não fosse a pressa, teria aceitado o convite para um café. Logo que o eczema crônico sarasse, iria convidar o guapo viúvo para uma nova vida a dois. Com sessenta anos de idade, solteira e amufumbada, ainda nutria alguns sonhos futuros. Tibério não iria casar com a jovem vizinha enfarosa. Era só boato do povo. Ouvia toda manhã a voz dele. Confiava nas suas promessas sinceras. Somente uma parede os separava. A vizinha andava sumida ultimamente de casa. Teria casado com outro viúvo. Ficou somente o irmão caçula aletrado. Havia muita mentira no mundo. 

– Eu te desconjuro, excomungada do diabo!


Eliton Meneses
Membro da APL

segunda-feira, 3 de junho de 2013

FOLHAS DE RELVA

Cesse esse pranto, retome seu passo; 
A vida não para; há sonho a embalar. 
Não quede silente, estão na espreita; 
Há fome por trás de um turvo sonhar. 

Supere esse medo, desperte do sono; 
O rio inda corre, não pense em parar. 
Foi só tempestade, sombrio pesadelo; 
Levante a cabeça e despache o penar. 

Há belo arco-íris e porta entreaberta; 
Desarme sua rede e ponha-se a andar. 
Esqueça a corrente, agora estás livre; 
Se tens duas asas, por que não voar? 

A brisa é serena e a manhã mal raiou; 
O fardo d'outrora, convém desterrar; 
Há luz e horizonte na vida que segue; 
Se a paz irradia, por que não cantar? 

Eliton Meneses 
Membro da APL

quarta-feira, 15 de maio de 2013

DOM CASMURRO. CAP. CXLIX. AS APARÊNCIAS



Não consegui jamais olvidar os olhos de ressaca da minha primeira e única amada, a despeito da poeira que o longo tempo acumulara. Capitu falecera já há alguns anos; Ezequiel, pouco tempo depois. Com a morte de todos os meus, pus-me ainda mais casmurro. Tocava a vida entre leituras desconexas e caminhadas tediosas. 

Permanecia quase todo o tempo enclausurado no gabinete de casa. Às vezes, por entre a fresta da janela, imaginava Capitu passando na rua; imaginava Ezequiel acenando, caminhando de mãos dadas com o pai Escobar, a imagem de um refletida no outro. Cerrava os olhos para não ver. 

A secretária tardava em trazer o café. Impossível ter faltado novamente. 

– Luzia? 

A casa estava vazia. Lá fora alguém parecia bater na porta. Devia ser a secretária chegando para os afazeres do dia. Não podia ser, o relógio marcava sete da noite. Luzia faltara novamente. Eu passara mais um dia com o estômago vazio. Precisava sair. Dar uma volta. Comer alguma coisa e respirar um ar fresco.

As batidas na porta insistiam. Olhei pela fresta da janela. Eram duas pessoas desconhecidas. Tentei recompor-me. Dirigi-me à porta. 

Tratava-se de um cientista austríaco chamado Friedrich Hoffman, acompanhado de um tradutor brasileiro. Dr. Hoffman conhecera Capitu na Suíça. Sua esposa se tornara grande amiga da solitária brasileira. Eva Hoffman foi a única pessoa para quem Capitu confessara todo o seu drama. O marido desenvolvia uma pesquisa genética que prometia desvendar os segredos da hereditariedade. A pesquisa ainda estava em fase experimental, mas Dr. Hoffman dizia já possuir elementos para respaldar a tese revolucionária. 

Eva Hoffman, instada pelo marido, ficara com uns fios de cabelo de lembrança de Capitu e Ezequiel. Com a morte de ambos, os resultados auspiciosos da pesquisa genética e os equipamentos de um laboratório móvel, Dr. Hoffman empenhou-se em localizar-me no Brasil. Não foi fácil, mas finalmente bateu-me a porta. Fiquei inicialmente assustado e tendente a não servir de cobaia do experimento visionário. Em meio às explicações demasiado complexas para os meus parcos conhecimentos científicos, vertidas para o vernáculo com esforço pelo tradutor, resolvi que não custaria nada tentar aplacar, ainda que tardiamente, a dúvida que me perseguira a vida inteira. 

No dia seguinte, Dr. Hoffman retirou-me uma gota de sangue e me solicitou dez dias para me apresentar uma conclusão. Com uns fios de cabelo de Capitu e de Ezequiel e uma gota de sangue meu, o cientista diria em poucos dias se Ezequiel era ou não sangue do meu sangue. 

Portei-me com ceticismo diante da convicção do cientista. Como os raios do século XX já haviam chegado com inovações outrora impensáveis, porém, resolvi tentar mitigar uma dúvida alimentando uma outra. 

Os dez dias demoraram uma eternidade. Intrigou-me Capitu não haver confessado a traição à senhora Hoffman, depois de revelar-lhe toda a vida. Dormi uma ou duas noites, com sonos atribulados e entrecortados de pesadelos. Quando acordava, continuava a ver Escobar, com um moçoilo à sua imagem e semelhança. 

– Luzia? O café! 

Ninguém no Rio de Janeiro dava conta de experimento científico semelhante. Um amigo da academia de ciências me afirmou que há certos mistérios que somente Deus pode desvendar. 

No final da noite do décimo dia, Dr. Hoffman me apareceu com aspecto taciturno. Entregou-me uns manuscritos permeados de números, fórmulas e gráficos, apertou a minha mão e, por intermédio do tradutor, me disse: 

– Capitu estava certa. O senhor é o pai biológico de Ezequiel! 

A cabeça girou-me antes do tradutor concluir a oração. Faltou-me terra sob os pés. Permaneci num transe por um vasto tempo. Nem me dei conta de que o cientista, imediatamente, retirou-se para não mais voltar.

Não podia ser. Devia estar delirando. Nada daquilo devia ser real. Deveria ser mais um pesadelo. Não deveria dar crédito ao exame. Os papéis ficaram sobre a mesa. Pareciam tão reais. Manuscritos permeados de números, fórmulas e gráficos que concluíam com: – Vaterschaft, ja. 

Consultei o dicionário português/alemão. O resultado efetivamente apontava para a confirmação da paternidade. Bento Fernandes Santiago era o pai de Ezequiel A. Santiago. 

Não era possível. Estragara minha vida estupidamente! 

– Dr. Hoffman, volte cá para esclarecer o resultado desse exame estrambólico! Tenho fundadas dúvidas acerca da veracidade da sua experiência! 

Preciso visitar mamãe, tio Cosme, José Dias, prima Justina... Será que todos faleceram? Não devo andar bem do juízo. Não fosse o resultado palpável do exame de DNA sobre a mesa, diria estar completamente louco. Tenho vontade de passear pela Praia da Glória, de revisitar a casa de Matacavalos. 

– Luzia? O café! 

– Capitu? Traga-me aqui o menino. Cadê a fotografia de Escobar? Convide Escobar e Sancha para jantar conosco. Viajaremos à Europa juntos. 

– Tens ciúme até dos mortos! 

José Dias diria que o menino é a minha cara. Prima Justina queria vê-lo. Mamãe, por que não nos visita mais? Dr. Hoffman, volte cá, devolva os cabelos de Capitu! Os cabelos do meu filho Ezequiel A. Santiago!

Há casos de semelhança física muito esquisitos entre as pessoas. Água mole em pedra dura... As pessoas não são pedras. Em verdade, em verdade, fallitur visio. As aparências enganam, mesmo um ex-seminarista que decorou do Eclesiastes que: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas." A vida dói mais do que a peça do teatro. 

– Luzia? O café! E o veneno da farmácia! 

Eliton Meneses
Membro da APL

quarta-feira, 1 de maio de 2013

OS DOIS PRIMEIROS SÓCIOS-CORRESPONDENTES

A Academia Palmense de Letras (APL) já conta com seus dois primeiros sócios-correspondentes. Trata-se de Valdemir Pacheco, advogado e poeta de Viçosa do Ceará, e de Gilmar Paiva, economista e poeta de Sobral (radicado em Fortaleza).

Saudações apeeleanas e votos de boas-vindas a ambos!
Valdemir Pacheco
Gilmar Paiva

sábado, 20 de abril de 2013

A TRAGÉDIA DA BARRAGEM


Era começo da manhã do dia 20 de fevereiro de 1985, uma quarta-feira de cinzas de um inverno chuvoso. Há poucos dias fizera sete anos de idade, mas recordo do acidente como se fosse ontem. Com a cheia do rio, retornávamos das compras do dia com água no meio da canela pela rua de baixo inundada. Piedade erguia a meia altura a vasilha com uns poucos mantimentos e caminhava lentamente sem atinar no mundo em sua volta. Meus olhos não desgrudavam da canoa que atravessava com dificuldade a forte correnteza. Tentei alertar minha irmã. Ela não deu atenção. 

Notei que havia algo errado. A canoa realizava a travessia quase numa linha reta, quando o normal seria subir um pouco o rio, para formar um semicírculo. Quase no meio do rio, a canoa começou a se aproximar perigosamente da velha barragem encoberta pelas águas turvas da enchente. Os remadores, percebendo o risco, redobraram o esforço para recuperar o controle da pequena embarcação apinhada de pessoas e pertences que vinham do interior para a missa de cinzas em Coreaú. 

Com a barragem se aproximando, a proa da canoa foi voltada contra a correnteza, numa tentativa desesperada de retomar o trajeto natural. Com o esforço enorme dos remadores, a canoa, por alguns momentos, deteve a queda rumo à barragem, mas sem conseguir subir um único metro rio acima. A partir daquele momento, todos na então movimentada rua de baixo voltaram suas atenções para a batalha dos remadores contra a força da correnteza, num alvoroço enorme. 

Depois de alguns momentos, os braços exaustos dos remadores não mais resistiram à força da correnteza e a canoa começou a descer inexorável o rio, até encontrar os pilares submersos da velha barragem. Nos pilares, a canoa se firmou por alguns instantes. Quem sabia nadar lançou-se logo nas águas agitadas abaixo da barragem. Os remanescentes, especialmente idosos, mulheres e crianças, ficaram agarrados uns aos outros clamando desesperadamente por socorro. 

Algumas testemunhas da tragédia lançaram-se nas águas para salvar os náufragos. Recordo particularmente do ato de heroísmo de Tium e de João Velha, mas outros tantos ajudaram no resgate, inclusive os próprios remadores. 

Momentos depois, já com poucas pessoas a bordo, a canoa perdeu o equilíbrio nos pilares e emborcou, lançando nas águas quase todos os passageiros remanescentes. Nesse momento, testemunhei boquiaberto um jovem passageiro, menino ainda, acompanhar habilidosamente o giro da canoa e se instalar no casco, equilibrando-se precariamente, até que, cedendo aos apelos de Tium, saltou na água assustadora e foi resgatado antes da curva do rio. 

Na tragédia, seis pessoas perderam a vida. Três corpos foram encontrados, outros três foram declarados desaparecidos. Durante vários dias, pescadores realizaram buscas orientados por uma cabaça e uma vela acesa dentro, que, segunda a lenda, seria atraída pelo corpo do náufrago, girando em cima dele quando o encontrasse. 

Conta-se que, na véspera do naufrágio, o rio havia roncando, produzindo um som estranho que seria o prenúncio da tragédia. Alguns falavam num caixão misterioso arrastado pelas águas do rio na noite anterior, além de outras estórias mais. 

Depois do acidente, João Velha recebeu reconhecimento pelo ato de heroísmo; Tium, reconhecimento e a remissão de uma condenação criminal. A canoa obsoleta levada pelas águas foi substituída por uma mais moderna, adquirida às pressas pelo prefeito em Sobral. O canoeiro contratado para comandar a nova embarcação, por coincidência, foi Oneon Bezerra, meu pai. 

Pouco tempo depois, porém, quiçá pelo alerta da tragédia, uma ponte estreita foi construída, desviando o leito do rio e acabando definitivamente a era da barragem e da travessia de canoa.

Eliton Meneses
Membro da APL

quarta-feira, 3 de abril de 2013

APL nomeia dois novos membros-efetivos

A Academia Palmense de Letras (APL) nomeou o casal Anatália Carvalho e Davi Portela para ocupar, respectivamente, as cadeiras de n.º 7 e de n.º 8 da entidade. 

Anatália Carvalho é professora de Português e Literatura e atual Diretora da EEEP Deputado José Maria Melo (Guaraciaba do Norte), possuindo vasta produção textual, algumas inclusive publicadas na Revista Veja. Davi Portela é professor de História, poeta, chargista, e conta com apreciável produção artística, veiculada nos mais diversos meios de comunicação.

Aos novéis membros da APL, nossas efusivas saudações e nossos votos de boas vindas, com o registro  especial de termos na entidade a primeira representante do sexo feminino!

Eliton Meneses
Membro da APL