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domingo, 7 de maio de 2017
ODE A BELCHIOR
Tua palavra cantada
Com muita indignação
Teu verso bem calibrado
Cativou essa Nação
Teu grito foi nosso grito
Me sinto bem um cabrito
Com o verso da tua mão!
Nossa juventude sabe
Há muito reconhecer
O valor da tua voz
E nunca esmorecer
O verso de Belchior
Já sabia minha vó
Faz o chão estremecer!
Verso enxuto, bem vestido
Com a chita da bonomia
Com o traço bem tramado
Nos vales da boemia
Lá no céu hoje tem festa
Eu queria só a fresta
Pra curtir essa orgia!
João Teles
segunda-feira, 25 de julho de 2016
NO SERTÃO TEM CHICO CUNHA
- Tô aqui todo entrevado!
Me diz ali velho amigo
Que já não suporta mais
A desdita do inimigo
- Oh dor infeliz, irmão
Vivo com a cara no chão
Que nada ocorra contigo!
Esse tal de Chico Cunha
Me pegou foi bem de jeito
É uma dor infeliz
Bem aqui no meio do peito
Dói cada nervo ou emenda
Tô abrindo da contenda
Mandaram fazer bem feito!
O negócio não tem fim
Eu já me perdi na data
Há meses que já não durmo
Comprimido já se cata
Lá em casa todo mundo
Saco já não tem mais fundo
É sério, não é cascata!
Eu já fui a hospital
E nada de ter um jeito
Passam dias e semanas
E não vem o tal efeito
Tô aqui que nem zumbi
Dá vontade de sumir
Eu largo já esse eito!
João Teles
sexta-feira, 27 de junho de 2014
O QUE É A CRÍTICA?
É a laranja podre e fedida que nos jogam aos pés. É a lima amarga que desagrada a nós e aos nossos (tão bem protegidos). É a velha mexerica de fundo de balaio, já renegada até pelo feirante que antes berrava, ávido por cifrão. É a melancia, passada, que não mais interessa aos pescoços. É o abacaxi cascudo e sem gosto que nos assalta o gosto por coisa melhor.
É a bem recebida manga da manhã. É a jaca da jaqueira da melhor quinta, que nos adoça o bico, com seus bagos d’ouro. É o abacate de polpa suculenta que nos enche o peito de gosto e gostosura.
Crítica é bicho bom. Quando nos agrada as oiças. É troço ruim, quando fala demais de nós e dos nossos - que mantemos na cápsula da (in)sensatez. Crítica é rasgo... é engasgo! É algo como “estou feliz, tou pasmo!” Crítica é... depende de quem a olha!
JOÃO TELES DE AGUIAR – professor, membro da Academia Palmense de Letras - APL
segunda-feira, 2 de junho de 2014
SITUAÇÕES
Ri com escracho, ri aos cachos
Tirei do monturo a iguaria
O pão seco
Cisquei o chão, vi o piso teso
Fiz um facho
E adentrei à fofa, pasteira estribaria
Vi negros espertos
Tratando potros a nenê
Com uma chuva de suor nos lombos
Fui recebido por serviçais numa ante-sala
Lindas, com seus buquês
Vi na trempe o fogo, a zoada, o estrondo!
Vi senhoras rabiscar o papel ordinário
E senhorinhas escorregar na escada
A ave solteira mandar recado ao canário!
Uma festa dormitava
Não fluía na madrugada
Se cantavam ladainhas
Se orquestrava o hinário
Mas não se fazia um rastro
Não nascia uma pegada!
João Teles, membro da APL
(publicada originalmente em 1995 pela DGF Edições)
Tirei do monturo a iguaria
O pão seco
Cisquei o chão, vi o piso teso
Fiz um facho
E adentrei à fofa, pasteira estribaria
Vi negros espertos
Tratando potros a nenê
Com uma chuva de suor nos lombos
Fui recebido por serviçais numa ante-sala
Lindas, com seus buquês
Vi na trempe o fogo, a zoada, o estrondo!
Vi senhoras rabiscar o papel ordinário
E senhorinhas escorregar na escada
A ave solteira mandar recado ao canário!
Uma festa dormitava
Não fluía na madrugada
Se cantavam ladainhas
Se orquestrava o hinário
Mas não se fazia um rastro
Não nascia uma pegada!
João Teles, membro da APL
(publicada originalmente em 1995 pela DGF Edições)
sábado, 1 de fevereiro de 2014
ZECA, O TAXISTA EM APUROS
Zeca viu que a vizinha cobiçada partira de casa rumo à escola do filho. Usava um vestido generosamente curto. Seguiu a bela como pássaro sedento rumo ao brejo. Ofereceu carona. Zeca era solteiro. Ela mal casada. A mulher aceitou, depois de olhar pros lados. Quando Zuleica sentou-se Zeca entrou em desespero. Não sabia se metia a marcha ou se enfiava-se naquele mar de tentações. Por fim saiu. Como carro pede marcha o tempo todo, Zeca se viu naquele encanto... Gostoso como sombra de igreja. Deu uma suadeira danada no trabalhador de meia idade. Zeca fez correr o dedo na testa várias vezes. Quando a dengosa chegou à escola do rebento subiu a calçada, para chegar ao portão... Generosa calçada, alta como as nuvens que encantam poetas.. De novo a cabeça de Zeca entrou em parafuso. Tudo que cobiçava e desejava há tanto tempo estava ali a sua frente, para ser... Na volta pra casa Zeca passou o tempo inteiro zonzo, abestalhado,... com um cuidado danado na criança...
João Teles de Aguiar
Professor e membro da APL
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
AS CHAPELEIRAS DA ZONA NORTE
É muito comum nos municípios da zona norte do Estado a figura da artesã, que trabalha com palha de carnaúba, conhecida na região de Coreaú e Frecheirinha como chapeleira. Fazer chapéu é uma arte que exige denodo e dedicação. Elas fazem urus, bolsas e chapéus. Este último muito utilizado pelo homem ou em hortas. O chapéu de qualidade inferior e, portanto, mais barato, é usado para receber as mudas de planta. As artesãs não recebem quase nada pelo que fazem, uma vez que a produção é vendida por muito pouco dinheiro. Num dia de serviço uma delas faz 8, 10 chapéus, que vendidos a R$ 0,60, R$ 0,70 não significam muito. Mas elas não deixam de produzir, até porque não têm outra atividade. Têm as que gostam do que fazem, evidentemente, e aproveitam o tempo de trançar as palhas para por a conversa em dia e fazer novas amizades. Se os maridos pedem para parar, ouvem logo o recado de que elas precisam ter seu próprio dinheirinho. Sem contar que muitas ajudam no sustento da casa. A arte com palha, como outra qualquer, ajuda na sensibilização da pessoa, o que a torna mais tolerante e humana. Uma atividade física e mental sempre faz bem a qualquer pessoa. E com as chapeleiras da zona norte não é diferente. Os locais da casa mais usados por elas para o "fazer chapéus" são as salas amplas e arejadas e, claro, os alpendres. Sempre com um radinho ou uma TV de lado, as chapeleiras não dispensam uma musiquinha ou uma boa novela. Até porque, de um enredo de novela para um bom bate-papo, é um passo! Às vezes, aparece um gato manhoso ou um cachorro dorminhoco, para fazer companhia às mulheres. E, se a "comadre" mora noutra casa ou mais distante, o velho guarda-chuva nunca é esquecido! Assim é vida simples, mas prazerosa das artesãs da palha da zona norte.
João Teles de Aguiar
Membro da APL
[Texto originalmente publicado pela revista Sincom, do Sindicato dos Corretores de Moda, que tem membros coreuaenses.]
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
O OUTRO QUE EU RENEGO
A gente saboreia o pão no café da manhã. Sem pensar em quem suou tanto para que ele chegasse a nossa mesa. O leite está ali. Alguém acordou de madrugada para ordenhar as vacas. Mas esse alguém parece ser ninguém. O biscoito veio da padaria. Mas padaria, dona Maria, não funciona só. A chaminé de lá foi alimentada. O fogo não ficou tão alto à toa. Quando a gente vai pro trabalho, depois do bom cafezinho, senta-se na cadeira do ônibus conduzido por um senhor, que largou a cama de madrugada e está ali, apurando dinheiro e produzindo riqueza. Pros outros. No trabalho você se junta a uma turma que vai cortar, aparar, ajeitar, por e retirar,... Tudo isso por um salário que mal dá pro alimento, deixando fora dele a vestimenta, a medicação e o descanso reparador. E a gente vai vivendo, com a impressão de que as pessoas que nos ajudam a conduzir a vida não são... gente! É o nosso jeito de renegar o outro. E a nós mesmos!
João Teles de Aguiar
Professor e membro da APL
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
A ÁGORA E O AGORA!
Não me interessa uma cidade deles. Onde eles cruzam a bola e correm pro cabeceio. Interessa-me uma cidade viva, que se discuta, se planeje, se curta! Uma cidade onde os homens sejam sujeitos de sua história. Uma cidade onde a dor seja sofrida em grupo e a cura seja buscada, coletivamente!
Para que quero uma cidade onde os doutores gritam e eu apenas ouço, escolhendo ficar calado ou sair correndo?! O que querem de mim, nessa cidade? Que eu seja como as rochas e dormentes de trem, que se deixam ficar anos a fio, vendo o tempo passar?
Interessa a elas apenas meus impostos, minhas taxas, meu pouco sangue? Ora, não foi essa vida que eu escolhi pra mim, enquanto cidadão! Quero viver a vida, chorar, gemer, sorrir, ser feliz! Quero a dor, quero o amor, o desamor, a festa, o rega-bofes e não apenas a fatura fria! Quero minha cidade pulando que nem cabrito nos montes da vida. Quero minha gente na vanguarda da felicidade, montando o alazão da contemplação da vida!
Chega de mesmices e de senhores sisudos gritando palavras que me ferem as oiças! Pra lá, doutor! Leve daqui seu balaio de sandices! Quero outro mundo!
João Teles de Aguiar
quarta-feira, 24 de julho de 2013
SEM CANSEIRA NO SERTÃO
![]() |
| Sertanejo, de Andréia Sara |
Do que eu gosto no sertão
É preciso destacar
São os berros no curral
Um bezerro a reclamar
Uma menina faceira
Um borrego a pinotar
Uma muriçoca doida
Minha perna a pinicar
Um terreiro bem limpinho
Mandioca a descascar
A chaleira lá na trempe
O café a preparar
Mandioca na tigela
Minhas tripas a resmungar
Uma rede no alpendre
E um sol a maneirar
Um ventinho bem rasteiro
O meu corpo a refrescar
Um radinho bem pertinho
Só Dominguinhos a tocar
O que eu quero mais na vida
Se aqui é meu lugar
Sem canseira, sem trabalho
E uma espinha a apertar?
Prof. João Teles
Membro da APL
segunda-feira, 22 de julho de 2013
SINA DE SERTANEJO
O sertanejo (dono de terra e gado) é sempre animado com cabra comedor. Geralmente, é homem trabalhador, daqueles que chegam ao pátio da casa do patrão com o desenho do suor no lombo. O sal do suor se encarrega de denunciar o acúmulo de esforços. Dinheiro pouco e bem ganho o daquele homem. De cinco da matina, do quebrar da barra ao início da noite é pau, é chibanca, é pedra, é foice, é machado, é tudo! Tudo pra produzir bens e riqueza pros outros. A honestidade tão mal paga! Sempre foi assim. Desde os tempos de Cabral... e da escravidão, que humilhava, maltratava, anulava,... Mas o sertanejo é forte! E apesar dos contratempos e da injustiça, vive a vida. A seu modo. Às vezes, só com a água no pote. "Mas num pego no alhei!"
João Teles de Aguiar
domingo, 2 de junho de 2013
QUE DROGA!
Pego a deixa do Ditim
Sem pensar em baseado
Por que eu - ele também
Não gosto desse traçado
Droga é, o nome diz
E não quero ser juiz
Coisa de réu, condenado!
Quem mergulha nesse bafo
Tem vida sacrificada
Ou é preso e bem atado
Vive desmoralizado!
Quando não vai pra cidade
E lhe digo sem maldade
De pés juntos, meu chegado!
A inteligência manda
Correr desse mundo louco
Escute logo esse grito
E não se faça de mouco
Procure uma boa ajuda
Não pense coisa miúda
Não tropece nesse chouto!
João Teles de Aguiar
Professor e membro da APL
sábado, 18 de maio de 2013
E, NO BAR,...
Há quem tome uma. Há quem encha a cara! Há quem peça uma malvada. Outros uma canicilina. Um senhor avisa que vai tomar uma ripada! Outro apenas umazinha... Um homem de poucas palavras pede um gole. O engraçadinho uns carocim! O mais quieto manda um decreto pro garçom: Uma! Um grandalhão, com cara de poucos amigos e muitas outras coisas, pede uma esfria chifres. Já aquele do canto, tímido e com vergonha (na cara dos outros), mostra o polegar e o indicador, medindo (pro balconista) o tamanho da maldade. E não diz palavra. Mas molha a que tem na garganta. Pra quem não gosta muito de balcão e nem de uma bicada, um aviso: eu não falei de cachaça. Mas de povo!
João Teles
Membro da APL
sábado, 4 de maio de 2013
MULHER, MULHER!
![]() |
| La Scapigliata, de Da Vinci |
Oh, mulher que me arrebata
Pro centro do coração
Me detrata, me maltrata
Cada dia, não sei não!
Eu gosto desse chamego
Oh, meu Deus, oh, meu Deus, não!
Está mui bem do tem lado
Tem o gosto de um quindim
Eu adoro as tapiocas
Que, eu sei, só são pra mim
Detesto ter que ir embora
Sem teu cheiro de carmim!
Tu me fazes muito bem
Teu amor tem gosto bom
És sincera, generosa
Sempre gosto de estar com
Essa menina faceira
Que tem lábios de bombom!
Teu arrocho é um achado
Todo toque é bom demais
Quando corro pro teus braços
Sou ligeiro, feito um ás
Quero toda tu, todinha
Desejo todos os teus ais!
Prof. João Teles
Membro da APL
Prof. João Teles
Membro da APL
domingo, 28 de abril de 2013
Nos meus tempos de menino...
A grota cheia virava um lugar de fuzarca. O namoro do bode uma espiação. O do calando, uma gozação. Açude sangrando era motivo de festa; a cata de guabirabas era uma brecha (sem trocadilho) prum chamego. Um gancho de cipó era transformado numa bicicleta; o carrinho de roda era motivo de vaidade e status; dois pedaços de casca de pau, com uma folha verde no meio, virava uma gaita improvisada. O talo do pé de jerimum, idem. Uma árvore qualquer (de galhos generosos) virava um parque de diversão. Um buraco no chão - um barreiro -, uma farra coletiva. Nossa felicidade era tamanha, que punha pro alto as "necessidades" dos tempos bicudos; tempos em que as mães davam aos filhos o desenxabido mingau d'água. Assim, quando morria um boi, abatido pelo golpe cruel do machado, era uma semana de feriados e de barriga cheia. Nem a cabeça (com aquele olhos que nos seguiam) ia pro mato! A gente quase aproveitava até o berro do bicho! Tempos difíceis de governos ausentes, distantes, insensíveis, acanalhados, (tempos em que ainda endeusavam um tal 'Vrigílio')... Como hoje!
João Teles de Aguiar - sócio-fundador da APL
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Os comboieiros da Zona Norte
Na zona norte do Ceará existia muitos comboieiros nas décadas de 1950,60,70 e 80. Geralmente partiam da serra e do sertão para a praia. Existiam também os que se deslocavam do sertão para a serra. Quem partia da serra para a praia levava rapadura,mel, cachaça, bolo manzape,batida, polpa de frutas, etc. Da praia traziam basicamente farinha e peixe. Faziam o que hoje fazem os caminhoneiros. Nas cidades costumavam parar. Ali alimentavam-se, alimentavam os animais (jumentos e burros),faziam negócios rápidos, conversavam entre si e com a população e compravam víveres. Depois, sob o estalar das macacas, a tropa era tocada. Tomava o caminho da lida!
SOB O ESTALO DA MACACA
A macaca usada pelos comboieiros era feita de corda grossa, em geral, relho (couro de boi, cru). Era longa, tinha cabo curto e na ponta uma pequena tira de corda de tucum. A chicotada doía uma barbaridade. Um estalo forte, um toque no animal e o coitado saía, atravessado, se vendo de dor. Muita gente "botava sentido" naquela arrumação. Mas fazer o quê ? Se falasse pegava carão do comboieiro, geralmente um homem muito trabalhador, mas muito rude.
COMBOIEIROS: VIDA ÁRDUA!
Os homens da macaca tinham vida dura. Passavam até dois meses fora de casa. Na retaguarda ficavam a mulher (ou mãe) e os filhos. Todos sentiam saudade."É de cortar coração!". Mas sabiam que, no final da viagem, aqueles homens tinham um bom descanço e, quem sabe, até poderiam abrir um roçado, uma pequena broca. A fartura de peixe e farinha cheirosa vinha em sacos de palha de carnaúba, chamados surrões. Não usavam os cestos de tiras de galhos, chamados grajaus. A família tinha um bom tempo para acabar com aqueles produtos tão desejados. Quando estava chegando o fim da abundância, lá se iam os homens de novo, para nova viagem pesada. A saudade chegava antes!
João Teles de Aguiar
Membro da APL
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Versinhos sertanejos
De uma enxada boa e nova
Eu corro uma meia légua
Sou um fraco nesse ramo
Um grande mama-na-égua
As perninhas só bambeiam
Da grossura de uma régua!
É difícil suportar
A canseira, o cansanção
E o suor correndo em bicas
Oh, meu nobre São João
Me livra de todo o mal
Não quero nem sonhar, não!
Ando fraco, meu santinho
Uma três libras não, não
Eu ando mais alteado
Que altura de anão
Ando brejando nas calças
Oh, senhor, ou senhor, não!
Eu corro uma meia légua
Sou um fraco nesse ramo
Um grande mama-na-égua
As perninhas só bambeiam
Da grossura de uma régua!
É difícil suportar
A canseira, o cansanção
E o suor correndo em bicas
Oh, meu nobre São João
Me livra de todo o mal
Não quero nem sonhar, não!
Ando fraco, meu santinho
Uma três libras não, não
Eu ando mais alteado
Que altura de anão
Ando brejando nas calças
Oh, senhor, ou senhor, não!
Por João Teles de Aguiar
Membro da APL
Membro da APL
terça-feira, 12 de março de 2013
O Araquém dos meus tempos...
Nas décadas de 60 e 70 vi muita coisa e minha memória guarda muitas delas. Algumas ligadas a doloroso sofrimento. Outras nem tanto! Como meu pai era um misto de agricultor, pecuarista, comerciante, amansador de burro, proprietário de terras e comboieiro, enquanto ele quebrava cabeça com tanta coisa, eu ia aprendendo, à moda Camões... Por conta disso, ficaram marcadas na minha cabeça a imagem dos homens sentados embaixo de árvores ou em algum oitão de casa, deixando o sol quebrar, comendo e dando milho aos burros e jumentos. Depois do de comer, homens e animais bebiam água feito arco-íris. Os primeiros, nas casas ou em seu cantis, os jegues e burros, no açude. Entre esses tocadores de animais existia também os do Araquém. Alguns vendiam roscas feitas de goma de mandioca. Levavam-nas pro Arapá, pra Frecheirinha, pro Mucambo,... Eu ficava bestificado em saber que aquelas iguarias não se espatifavam no chão, virando comida pros balecos!
Os foiceiros, derrubadores de palha de carnaúba, também me encantavam. Destemidos, durões e contadores de lorota. Os vaqueiros também eram figuras marcantes. Sempre contando histórias. Nunca perdendo pros touros. Sempre achando-se melhor do que os outros. Sempre contando vantagem. Mais os enxadeiros eram quem mais me chamavam a atenção! Principalmente aqueles que me ajudavam nas funções do meu pai, me permitindo um "feriado". Um deles comia feito bicho. Ou, como ele mesmo dizia, "como um condenado!". O feriado, você sabe, é aquela clareira que aparece no meio do mato a ser derrubado, nos permitindo uma folguinha nos cortes... Milhã a menos, jitirana que não nos perturbavam as pernas! São lembranças dos tempos em que a gente vestia calça curta, mas tinha o sofrimento longo! Minorado um pouco pelo leite mungido na porteira do curral e pela pratada de coalhada no início da noite. Mas, como diria Fernando Pessoa, o bardo português, "tudo vale à pena, se a alma não é pequena!"
João Teles de Aguiar - Professor e membro da APL
domingo, 10 de março de 2013
Dona Livramento, a filha do sofrimento - por João Teles
NOSSO ROMANCE INTEIRIÇO, para os amantes da Literatura de Cordel:
DONA LIVRAMENTO, A FILHA DO SOFRIMENTO
1. Sei que os deuses do Olimpo
Vão me dar inspiração
Para narrar com tempero
E alguma devoção
Fatos manchados de dor
Doença vil e oração.
2. Livramento só viveu
Em nosso árido sertão
Cresceu em meio ao temor
De uma seca, com razão
Pois sabia que uma seca
Rima com desolação.
3.Muito nova se casou
Com Tomaz, um homem bom
Logo veio a embiricica
De meninos - foi um dom
Com muito trabalho e força
Nunca soltou o guidom!
4.E Tomaz corria o mundo
À procura de feijão
Era forte, destemido
Pra trabalhar, um leão
Os filhos sempre no apoio
Lá no sofrido sertão.
5.O tempo passou e veio
Longa era de sofrer
A filha mais velha Menta
Viu na rede esmorecer
E em três dias de dor
Sua face se desfazer!
6.Livramento, em meio a prantos
E o apoio de Tomaz
Viu a filha lutadora
Ligeira que nem um ás
Perder a vida, tão boa
Sem conhecer um rapaz!
7.A dor logo fez morada
Naquele peito cristão
Rezou muito, fez pedido
A Padre Cícero Romão
Iria, sim a Juá
Buscar a consolação!
8.Não demorou muito tempo
A tragédia se ampliou
Tomba outra filha adulta
O mistério se infiltrou
Livramento quase explode
A dor se multiplicou!
9.É difícil conviver
Com uma dor sem igual
Onde a incerteza reina
E isso não é normal
Em uma família unida
De espírito fraternal.
10.Já era a segunda filha
Que Livramento perdia
Tanto pranto, tanta dor
Livramento se partia
Por dentro do velho peito
Um mundo se remexia!
11.E não parou por aí
O seu lamento cristão
Logo, logo ela se viu
De novo, de Deus na mão
Mias uma filha querida
Desabou e foi ao chão!
12.Três duros golpes nos ombros
Aquela mulher sentiu
De repente, para ela, o mundo
O mundo se repartiu
Suas meninas de ouro
O tal mistério suprimiu!
13.Livramento olhava o céu
Sem mais nada compreender
Suas moças, logo três
Ela viu, ali, morrer
Santo Deus o permitiu
Queria vê-la sofrer?
14.Quando a tragédia golpeia
Um ser vivo, um cristão
Deixa marcas em relevo
Dá chutes no coração
É difícil suportar
É preciso fé, então!
15.A criatura de que falo
Teve mais, mais sofrimento
Um filho seu, de maior
Lhe digo sem fingimento
Um dia, por brincadeira
Caiu ali, ao relento!
16.Brincando com ferros velhos
Que estavam no monturo
Levou logo uma pontada
De algo pontiagudo
Desabou feito criança
Rendido por treco duro!
17.E abateu-se por tétano
Cruelmente atingido
O corpo veio do hospital
Houve choro não fingido
Livramento já não tinha
Lágrimas - bem entendido!
18.Quatro seres tão queridos
De família de partilha
Aquilo não ocorria
Não se via na cartilha
A notícia varou mundo
Palpites surgiram em pilha!
19.Por que aquela família
De bom nome, povo bom
Sofria aquele revez
Ouvia naquele tom
O grito da natureza
Seria esse seu dom!?
20.Depois de uma trégua boa
Bons momentos de ilusão
De prece e boataria
E de dor no coração
Já em uma casa nova
Começou a reconstrução!
21.Na casa velha deixara
Lembranças, eito, memória
Dos carnaubais o bom corte
Das farinhadas a glória
As redes tão bem trançadas
E a vida bem simplória!
22.Seu Tomaz, um diligente
Sempre bem cuidou de tudo
Era sempre o formiguinha
Com tristeza, sei, contudo
Mas, diante do bom Deus
Nunca se fez um miúdo!
23.Após tempo de bonança
De produção, calmaria
O destino do tal homem
Ele agora chamaria
Tomaz arriou, doente
Coração velho gemia!
24.Durou dois dias somente
Sua dor tão desmedida
Mais uma vez Livramento
Ao transtorno voltaria
Ao ver que o marido bom
Para o além partiria!
25."Sua dor doeu mais forte"
Como diz lá o cantor
A filha do sofrimento
Novamente desandou
Tropeçou nas próprias pernas
Por pouco não se acabou!
26.Seu Tomaz partiu depois
De quatro filhos se irem
De tanto seu coração
De rurícola ferirem
De tanto pranto e descrença
De sentimentos partirem!
27.Sepultado Seu Tomaz
O vazio se fez ver
Naquela casinha pobre
De um povo a merecer
Tanta tristeza conjunta
Todo mundo a perecer!
28.Uns dois anos se passaram
De saudade e calmaria
Livramento se apegava
A Deus, à santa Maria
Pois queria compreender
Tanta dor, tão sem valia!
29.Mas sua sina era sofrer
Dor vinha de borbotão
O filho mais novo seu
Pela mulher de então
Foi traído em leito próprio
"Que sujeita sem criação!
30.Surgigado pelo crime
Da companheira traíra
Filomeno fez-se dor
Para sempre ela mentira
Lhe jurando amor sem fim
Na cilada ele caíra!
31.Nem respeito aos filhos teve
Embiricica de oito
A mulher do tal adúltero
Se planejou e em coito
Com um filho muito novo
Arisco, sagaz, afoito,...
32.... E mandou surrar Torquato
Seu marido traidor
Que, partido de chicote,
Se urinou todo, em dor
Não resistindo aos ataques
No mato, ali, se findou!
João Teles
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