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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

DIA DOS PAIS



A figura do pai tem significado muito forte desde a mais remota das civilizações e religiões. Todo pai reveste-se de importância e referenciais; o meu pai foi é um referencial para mim; deixou a imagem e o exemplo de disciplinador diante de circunstâncias e sempre com o contraponto da doçura de minha mãe. Mas havia entre eles um pacto tácito de respeito entre as atitudes e mútuas decisões – que sábia hierarquia! O frágil "rigor" de papai era adoçado na minha infância pelas cavalgadas que com ele fazia em suas idas até o Morro-Redondo, de sua propriedade, para nos períodos invernosos ver a evolução dos roçados e o pastoreio das vacas e caprinos nos campos de pasto.
Guardo na memória as informações transmitidas por ele durante o tropel do cavalo no percurso entre a Palma e a fazenda; falava sobre as serpentes, raposas, guaxinins, onças e outros animais. Diante de minha curiosidade infantil descrevia seus modos de vida e defesa. As aves, estas eram comentadas com severa recomendação a ser cumprida: de nunca atirar nas aves através de baladeiras, instrumento proibido, cuja determinação haveria de ser cumprida. Na nossa casa não tinha baladeiras. Não lembro de ter "assassinado" um pássaro.
O descortino das coisas do mundo descritas por ele ia desde as normas comportamentais, os estudos e os horários. Menino ainda de 12 anos, vim com ele pela primeira vez a Fortaleza, a cidade grande, no ônibus da Expresso de Luxo, um Fargo que partia de Sobral, alguns vindos de Teresina, para uma consulta médica. Nos hospedamos na Pensão Napoleão, na Rua Senador Pompeu. Chegamos numa noite e no dia seguinte, após o café matinal, fomos à consulta com o doutor. Após a consulta, papai, no intuito de agradar-me, perguntou: – Galba o que preferes, subir num arranha-céus ou ver o mar? De pronto respondi que queria ver o mar. Aí aconteceu um dos momentos que nunca consegui esquecer: fomos até a Praça do Passeio Público; era uma tarde verão, creio que outubro ou novembro, o azul infindo do mar deixou-me extasiado e emocionado. Ao lado, relembro a felicidade de papai a descrever, diante de minha admiração, que o mar terminava em outras terras muito distantes.
Esta remota imagem é inesquecível, assim como a satisfação dele de ter proporcionado esta encantadora emoção. Assim são os papais, diferentes, unos, justos, solidários e o forte protetor dos filhos.
Feliz dia do papai a todos que já se foram e aos que ainda estão presentes, simples ou sofisticados... 

Galba Gomes 
Membro da APL

P.S.: A foto, de forma deliberada, mostra outros tempos em que as pessoas ofertavam aos amigos com dedicatória. Meu Pai era Deusdedit Gomes Fontenele.

terça-feira, 29 de abril de 2014

HOMENAGEM DA PARÓQUIA DE COREAÚ À DOM BENEDITO ALBUQUERQUE

Há sessenta anos, o então Padre Benedito Albuquerque, ainda muito jovem, celebrava a sua Primeira Missa e em seguida assumia a Paróquia de Nossa Senhora da Piedade em sua Terra Natal, Coreaú, foi motivo de muito júbilo para Seu Zé Barra, Dona Cocota e todos os seus familiares e conterrâneos. 

Coreaú era a época uma pequena urbe com três praças, algumas poucas ruelas periféricas e a maior parte de sua população rural possuidora de muitos problemas: fome e subnutrição, absoluta falta de assistência à saúde, inaceitáveis e desumanas cifras de mortalidade materno-infantil, maioria da população analfabeta. As únicas instituições de ensino eram o grupo escolar e algumas escolas em poucas casas, que asseguravam o ensino somente até o primeiro grau ou primário como era chamado este nível de ensino. 

Padre Benedito veio com determinação pétrea de inconformismo com esta situação e de assegurar oportunidade educacional a população com a convicção de ser este o único meio de reverter a miséria e assegurar promoção social e humana. 

Fundou o Educandário Nossa Senhora da Piedade, sendo ele Diretor, Professor, Gestor...Tudo. Selecionou alguns poucos abnegados e capacitados ao ensino em Coreaú e importou outros. Desta semente vicejou o Ginásio Nossa Senhora da Piedade, assegurando oportunidades sequenciais de ensino aos jovens talentos da terra, que seguiram seu destino na Universidade Federal do Ceará e de outros Estados do Brasil.

Padre Benedito, nunca abdicou de sua vocação de Educador sempre aliada e subordinada a sua longa e vocacionada trajetória de religioso seja como vigário em outras paróquias do interior e de Fortaleza até ser ordenado bispo para a Diocese de Itapipoca, sempre muito prestigiado pelos fiéis e pelo clero cearense e brasileiro, tendo exercido funções firmes e determinantes na pastoral da terra.

Dom Benedito, um pensador e intelectual da Igreja, mantendo, em todo o tempo, uma postura humana e discreta, mas muito firme, fez pós-graduação na Universidade Gregoriana de Roma, onde agregou saber e conhecimento. Hoje, ele é Bispo Emérito de Itapipoca e diria o Vigário Perpétuo da Paroquia Nossa Senhora da Piedade, de Coreaú, que não tenho medo de estar equivocado, foi e será para sempre a mais simples, mas, a mais querida das funções eclesiásticas exercida.

Dom Benedito, os seus conterrâneos coreauenses, os seus ex-alunos e descendentes serão eternamente gratos por tudo que foi feito em benefício de nossa terra e de nossa gente. Vossa Reverendíssima foi e será uma referência de Coreaú para o Clero em Geral, como Professor, Intelectual e Pastor da Igreja Católica.

Nossa Eterna Gratidão.

José Galba de Meneses Gomes
Membro da APL

Nota: este Texto expressa o sentimento de todos os Paroquianos de Coreaú e dos Ex-Alunos do Ginásio Nossa Senhora da Piedade, na ocasião das homenagens da Paróquia Nossa Senhora da Piedade de Coreaú aos sessenta anos de profícua vida Eclesiástica de Dom Benedito Francisco de Albuquerque.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DOM BENEDITO: 60 ANOS DE SACERDÓCIO



Há sessenta anos, o então padre Benedito Albuquerque, ainda muito jovem, celebrava a sua primeira missa e, em seguida, assumia a Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, em sua terra natal, Coreaú. Foi motivo de muito júbilo para seu Zé Barra, Dona Cocota e todos os seus familiares e conterrâneos. 
Coreaú era à época uma pequena urbe com três praças, algumas poucas ruelas periféricas e a maior parte de sua população rural possuidora de muitos problemas: fome e subnutrição, absoluta falta de assistência à saúde, inaceitáveis e desumanas cifras de mortalidade materno-infantil, maioria da população analfabeta. As únicas instituições de ensino eram o grupo escolar e algumas escolas em poucas casas, que asseguravam o ensino somente até o primeiro grau ou primário, como era chamado este nível de ensino. 
Padre Benedito veio com determinação pétrea de inconformismo com esta situação e de assegurar oportunidade educacional à população, com a convicção de ser este o único meio de reverter a miséria e assegurar promoção social e humana. 
Fundou o Educandário Nossa Senhora da Piedade, sendo ele diretor, professor, gestor... Tudo. Selecionou alguns poucos abnegados e capacitados ao ensino em Coreaú e importou outros. Desta semente vicejou o Ginásio Nossa Senhora da Piedade, assegurando oportunidades sequenciais de ensino aos jovens talentos da terra, que seguiram seu destino na Universidade Federal do Ceará e de outros Estados do Brasil.
Padre Benedito nunca abdicou de sua vocação de educador, sempre aliada e subordinada a sua longa e vocacionada trajetória de religioso, seja como vigário em outras paróquias do interior e de Fortaleza, até ser ordenado bispo para a Diocese de Itapipoca, sempre muito prestigiado pelos fiéis e pelo clero cearense e brasileiro, tendo exercido funções firmes e determinantes na pastoral da terra. 
Dom Benedito, um pensador e intelectual da Igreja, mantendo, em todo o tempo, uma postura humana e discreta, mas muito firme, fez pós-graduação na Universidade Gregoriana de Roma, onde agregou saber e conhecimento. Hoje, ele é Bispo Emérito de Itapipoca e diria o Vigário Perpétuo da Paroquia Nossa Senhora da Piedade, de Coreaú, que, não tenho medo de estar equivocado, foi e será para sempre a mais simples, mas a mais querida das funções eclesiásticas exercidas. 
Dom Benedito, os seus conterrâneos coreauenses, os seus ex-alunos e descendentes serão eternamente gratos por tudo que foi feito em benefício de nossa terra e de nossa gente. Vossa Reverendíssima foi e será uma referencia de Coreaú para o clero em geral, como professor, intelectual e pastor da Igreja Católica.
Nossa eterna gratidão! 
Coreaú-CE, 06 de janeiro de 2014.

José Galba de Meneses Gomes

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SOS PENANDUBA




Ao ler a descrição, fiel descrição, da corajosa e destemida subida à montanha dos jovens desbravadores, Augusto, Benedito, Hélio e Tainá, até o cume da Serra da Penanduba, fiquei impelido a reconstruir algumas imagens-sentimento de um passado já distante sobre as onças-pretas, macacos-guaribas, raposas, veados, cobras cascavéis, cobras jiboias (cobra-de-veado) e gatos-maracajás (jaguatirica), que eram os componentes da fauna desta formação montanhosa chamada de Penanduba, localizada próximo a Araquém, distrito pertencente ao município de Coreaú, no Estado do Ceará. Era e é uma área praticamente desabitada pelo homem, mas contumazes ações e explorações deletérias do próprio homem contribuíram para que seu rico ecossistema fosse praticamente dizimado. 
Coreaú, na primeira metade dos anos cinquenta do Século XX, era provida de poucos arruamentos desprovidos de calçamento. A iluminação pública só funcionava no horário das 18 às 22 horas, período em que os habitantes adultos sentavam-se em cadeiras nas calçadas em rodas de papos – Jornal da Noite – referentes ao cotidiano da população, enquanto as crianças brincavam de contar e ouvir estórias, esconde-esconde, pernas de pau, jogo da macaca, e os mais taludos flertavam com as meninas que jogavam pedra, brincavam de roda, de prenda e de anel com os meninos. O anel, ao ser colocado escondido nas mãos de um dos participantes, era motivo de fantasiosas sensações durante o roçar das mãos das meninas com as dos meninos, daí surgiam muitos namoros e casamentos. 
Muitas estórias estão presentes no imaginário dos coreauenses presentes e de antanho, algumas associadas aos mistérios da Serra da Penanduba e manifestadas nas estórias de trancoso, e muitas incorporadas ao domínio público por decorrência de contos e causos criados por caçadores e figuras populares tipo Chagas da Onça, pacato conterrâneo que além de muito trabalhador e ligado à ambiência campesina, era exímio contador de causos e histórias com mirabolantes versões tipo ter visto uma formiga gigante nos altos de uma carnaubeira a se alimentar do seu fruto. Nos anos cinquenta era comum ver esticados para curtição solar, nas calçadas de Coreaú, couros de jiboias, veados e gatos-maracajás (jaguatirica), resultantes da caça predatória, que, depois de secos e curtidos, eram vendidos aos comerciantes de Sobral e, a partir daí, seguiam em demanda para Fortaleza, São Paulo e exterior e transformados em sapatos, roupas e disputados acessórios de uso masculino e feminino. 
Àquela época, o nível de consciência ecológica da população era quase inexistente, o que contribuiu para a dilapidação do ecossistema, o que ainda continua até hoje, talvez de forma menos intensa. Em todo caso, aquilo, na minha meninice, causava-me mal estar em ver os “frutos” da matança dos animais. Em consonância, um temor era gerado pelas fantasias descritas pelos caçadores que iam desde a existência de caiporas e coisas do “outro mundo”, até ferozes onças-pretas, talvez uma forma de compensação para a dor de consciência e suporte de justificativa daqueles que provocavam a trágica matança e agressão à natureza. 
Os ipês ou paus-brancos, além de outros espécimes vegetais, foram praticamente dizimados e não replantados. Nada restou, a não ser a bela montanha que divisa com a Frecheirinha, bela e azul ao longe, mesmo desmatada, mas árida e quase desértica na visão próxima de sua área territorial, situada bem no epicentro do semiárido do sertão onde se encrava Coreaú e municípios circunvizinhos. As fontes d’água gostaria que ainda persistissem, estas são minhas esperanças e quem sabe possa ressurgir um projeto ou programa de revitalização do ecossistema com a necessária e educativa proteção ambiental, de todo o espaço da serra e que, por decorrência, poderia se adequar ao ecoturismo de trilhas, ideia já sinalizada pelos desbravadores citados, pois imagino que no seu cume ainda resta algo da bela natureza, além de uma temperatura mais amena que deve se reduzir em pelo menos 3ºC entre a máxima e a mínima da região, pois pertinente ao clima de montanha.

Galba Gomes 
Membro da APL

domingo, 10 de março de 2013

Reminiscências da Palma

Meados dos anos cinquenta. Acontecia a inexorável transição de minha infância para a puberdade. Os primeiros sonhos agitavam-me a mente. Lembro-me bem mundo de então, da minha Palma querida...
Minha casa era de cor azul, situada numa singela pracinha, ainda sem calçamento, onde os jovens de minha época corriam de bicicleta alugada ou circulavam na busca dos primeiros namoros com os brotos, que usavam saias abaixo do joelho e sob elas as anáguas endurecidas pelo grude e que lhes dava um aspecto que lembrava os vestidos das dançarinas de balé.

Num dos extremos da praça, estava a igrejinha, com sua torre e seu sino melodioso, tangido pelo eterno sacristão Irineu, ao amanhecer, ao meio-dia e no entardecer. Só silenciava durante a Quaresma, quando era substituído pelo martelar seco da indefectível matraca. No outro extremo da praça ficava a casa do vovô Leopoldo, de frente à igreja. Guardo nos mínimos detalhes como eu o via sentado em sua cadeira de balanço, ao lado de sua companheira Quina, a receber a visita de suas filhas e netos. Ainda hoje me vem à mente o perfume do jasmineiro, na entrada de sua casa... No outro lado morava o vovô Batista e sua Quintina. Esse era muito ligado à sua fazenda de onde retornava nos fins de semana.

Minha casa tinha de tudo: um quintal com vacas leiteiras, porcos e galinhas caipiras de pescoço pelado. Até rádio – coisa rara na época – tínhamos um que eu escutava horas e horas quase sempre a velha PRE-9 ou Rádio Timbira do Maranhão. As rádios de Sobral só viriam depois.

A Palma é um lugar bonito. Pobre, mas bonito. Fica entre duas lindas serras azuis: a Meruoca e a Ibiapaba, sem esquecer o Serrote com seus olhos d’água perenes e seu verde exuberante no inverno.
Às vezes sentava-me no auto do mourão, na porteira do estábulo de minha casa, e entrava em profundo devaneio, a contemplar a silhueta da Serra Grande, não sei bem se a imaginar que o mundo terminava ali, por trás daquela imensa montanha. Afinal meu era aquele...

A Palma do meu tempo era uma cidade alegre. Tinha uma original bandinha que animava a Festa de Nossa Senhora da Piedade, com seus partidos Encarnado e Azul (lá em casa éramos do Encarnado) e os bailes em que imperava a divisão preconceituosa e inaceitável de “pardos” e “brancos”. E havia ainda, animados pela bandinha, as retretas no patamar da igreja. O mais original, porém, era a festiva chamada dos músicos com o toque do bumba da casa do Chico Irineu. Toda a população ouriçava com os primeiros acordes da bandinha. Gente, cá pra nós, aquela bandinha precisa renascer com toda sua originalidade.

E pau do rio? Existirá ainda aquela frutinha gostosa? De vez em quando chegava um dos afilhados de minha mãe com um prato de ágata abarrotado de pau do rio para nos presentear esperando, talvez, nos agradar e ao mesmo tempo receber em troca um prato cheio de farinha. Esse tipo de relação de troca me comove profundamente, pois configura, até na quase pobreza absoluta, a dignidade de nossa gente.
Os tempos passaram, alcancei novos valores, conheci outras terras, conquistei novas amizades. Entrementes, minha Palma, que é minha terra natal, permanecerá em mim, de forma indestrutível, a mesma de minha infância: bucólica, terna, alegre, ensolarada e, acima de tudo, terra de gente boa, digna e empreendedora.

Galba Gomes