quinta-feira, 11 de setembro de 2014

CONTO DE SETEMBRO

Dia 14 de setembro de 1959. O locutor da amplificadora com voz empostada anunciava: para uma bela jovem que está, neste momento, sentada no banco da praça, alguém com o coração apaixonado lhe oferece esta linda página musical na magnífica voz de Nelson Gonçalves; para você, a normalista! A voz possante de Nelson tonitruava no éter estrelado da cidade em festa. 
Meu afilhado, no burburinho dos vai e vens da multidão, dividia sua atenção entre a banda que tocava no patamar da igreja, se antecipando ao grande leilão, e sua obrigação de cuidar das vacas no curral que ficava próximo de sua casa. Seu pai o encontra e pergunta: 
− Marcelo, você já foi ver se a Cigana chegou? 
− Não pai, mas vou agora. 
− Pois vá mesmo, são quase oito horas da noite; é preciso separar o bezerro pra amanhã se tirar o leite. 
Marcelo, com apenas onze anos já tinha suas responsabilidades para ajudar seu pai na labuta do dia a dia. Lastimou ter que sair da animação da festa. Bodejando cobras e lagartos, amaldiçoou aquela vaca profana (tirou-o no melhor da festa da Piedade) que sempre chegava cedo ao curral e, justo naquele dia, véspera do final da festa de setembro, atrasou tanto. O garoto estava no seu dia de glória, vestia a calça (curta) de linho branco, bem engomada que eu, como seu padrinho, havia lhe dado de presente e a camisa volta ao mundo azul piscina, prenda de sua madrinha. E mais que isso: estreava os sapatos que esperou dois anos seus pés crescerem para poder calçá-los. Estes sapatos lhe foram deixados pelo irmão mais velho, que os usou até não caber mais nos pés. 
Enquanto Marcelinho esperava crescer os pés, os sapatos repousavam envoltos em uma flanela numa caixa de sapato dentro do armário e, vez por outra, recebia cuidados especiais: eram escovados, engraxados e experimentados para ver o quanto ainda sobrava sapato e faltava pé. Aguardava ansioso o dia de poder calçar sapatos novos; pouco importava se eram herdados, para ele era novo! Sua mãe, minha comadre, admirou a beleza do filho todo arrumadinho. 
– Meu filho, você está muito bonito, já se parece um rapazinho, hoje vai até arrumar uma namoradinha. 
– Oh, mãe, eu ainda sou pequeno, não quero saber de namorada, não; eu sou da cruzada, tenho que rezar e ajudar na missa. Hoje vou ficar com o turíbulo, gosto do cheiro do incenso quando o padre coloca na brasa; sobe uma fumaça cheirosa! 
Ao chegar ao curral, na rua dos fundos de sua casa, Marcelo encontrou a Cigana malhada, tranquilamente, ruminando o pasto do dia. Naquele ambiente pouco iluminado, Marcelo tratou logo de por a vaca para dentro do curral, juntando-a ao bezerro e aguardou impacientemente o bezerro apojar para, em seguida, apartá-lo da mãe e correr de volta para a animação da festa. O pior para Marcelinho estava por vir. 
Fechou a porteira do curral apressadamente para abreviar seu retorno à Praça da Matriz, onde seu pai, sua mãe e seus irmãos estavam sentados na primeira fila próxima à mesa com as prendas do leilão. A comadre Jovenise se deu pela falta do filho; preocupada, perguntou à filha, que se sentava ao seu lado, se tinha visto Marcelinho por onde ela andou. 
– Não, mãe! Perguntei aos amigos dele e ninguém soube dizer onde estava. Foi quando meu compadre Jeremias percebeu a aflição da mulher, informou que o havia mandado chiqueirar a Cigana no curral. 
– Valha-me, minha Nossa Senhora da Piedade, cadê meu filho, o que terá acontecido com ele? Vamos Jeremias! Agora mesmo ao curral. Que Deus me perdoe! Marcelinho pode ter levado um coice ou uma chifrada, ele ainda é tão criança para fazer este tipo de serviço. A família se levantou e rumaram todos para o curral. 
De repente, como rastilho de pólvora, o boato se espalhou pela praça: Marcelinho, filho do Jeremias levou um coice da vaca; outros corregiam: 
– Não, foi uma chifrada. 
E todos, em uníssona solidariedade, rumaram para o curral, deixando quase esvaziado o leilão. O vigário, que estava muito interessado naquele leilão, pois seria leiloado um garrote doado por um fazendeiro rico, esperava fazer um bom apurado para Nossa Senhora. Muito a contragosto, o pároco suspendeu, por alguns instantes, o leilão até que se tivesse notícia do menino que levou uma chifrada. 
Foi quando se ouviu a voz embargada de emoção do locutor da amplificadora anunciar: 
– Atenção,  senhoras e senhores, tenho uma notícia triste. Marcelo, filho dos nossos queridos paroquianos Jeremias e Jovenise, sofreu um grave acidente nesta noite. Foi violentamente chifrado por uma das vacas de seu pai, e ,segundo informação, será levado para Sobral com grande hemorragia. Que todos rezem para que o pequeno cruzadinha de nossa paróquia sobreviva para a alegria de todos. Que São Tarcísio o proteja! ´
A família chega ao curral e nada de Marcelo. O pai vasculhou o curral todo. Estava tudo em ordem, a Cigana e o bezerro separados e as porteiras bem fechadas. A aflição aumentou. Rumaram para casa na esperança de o encontra lá. De fato, Marcelinho estava aos prantos. Quando viu a mãe foi logo dizendo: 
– Mãe, pra mim a festa acabou. 
– Oh, meu filhinho! O que lhe aconteceu, você está ferido, está sangrando muito? 
– Não, mãe! Não estou nem ferido, e nem sangrando. 
– E o que aconteceu com você, meu filho? 
– Meti o pé na bosta, meu sapato, está todo cagado, não serve mais pra nada, eu não tenho outro sapato, como vou voltar pra festa? Foi um alívio para todo mundo e o pai quis saber como aconteceu. – Me conta meu filho, como isto sucedeu.
– Estava muito escuro pai, quando fechei a porteira do curral e ia voltar para a praça meio apressado, pisei com meu sapato numa ruma de bosta de vaca; desgraçou meu sapato, não serve mais pra nada. 
Nisto chega a turma que deixou a praça. Quando avisada do que realmente tinha ocorrido, a reação foi um misto de alívio e de galhofa. De repente, não mais que repente, a nova notícia se espalhou pela praça. O padre ordena a retomada do leilão e pede para Luiz Breu, o leiloeiro oficial, anunciar a boa nova: 
– Aaaatentençãoooooooooo! O memeninino não lelevovou uma chichifrafrada não, fofofoi uma cacagagada. QQuem dadádá mamais por esssta gagalinhha aassada? 

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A banda tocou e a festa continuou. Em quase tudo na vida, acontecem as cagadas, até na festa de setembro. Nunca vi uma cagada dar tanta confusão.

Mardone França

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ASSIM, FAZ A CANETA CORRER




Assim, faz a caneta correr

Sumida da escrita porquê,
A lida consome o tempo
O tempo limita as horas
E não tem escapatória
Quando se vê, o dia passou.

Mas quando se faz o que gosta
Arruma-se um jeito daqui e dali
Ajeita, deixa feito, ou desfeito
O trabalho, a canseira.

Assim, faz a caneta correr
Entre as linhas do papel descrever:
Fatos, valores, amores...
Assim como a seiva circula as folhas
É nesse mesmo vai e vem,
Que a ponta da caneta rabisca,
Imagina, prospera, pondera...

A mente adoça,
Aguça, encuca
Mais que de repente
Surge o sabor,
Sabor de mel, ou fel.
E é nessa inquietação,
Que o texto surge.

Literatura?
Quem sabe!
Poderia ser um cordel!
Apresentando um conto
Improvisado, arretado.
Daqueles que deixa o leitor
Atordoado, estonteado!

Na ansiedade ele pula
Do começo para o fim
Não lê as entrelinhas
Para entender,
O que o deveria saber
Logo que terminasse
A história de ler.

Airla Gomes M. Barboza
Membro da APL

domingo, 31 de agosto de 2014

PEDRAS


Pedras, simplesmente belas,
Belas duramente pedras, 
Ao céu querendo chegar, 
Da terra não podem se despregar. 
Assim, tal qual meus sonhos me fazem voar, 
Da realidade crua, nua, 
Às vezes belas, Às vezes feias, 
Não posso escapar.

Mardone França

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

DIA DOS PAIS



A figura do pai tem significado muito forte desde a mais remota das civilizações e religiões. Todo pai reveste-se de importância e referenciais; o meu pai foi é um referencial para mim; deixou a imagem e o exemplo de disciplinador diante de circunstâncias e sempre com o contraponto da doçura de minha mãe. Mas havia entre eles um pacto tácito de respeito entre as atitudes e mútuas decisões – que sábia hierarquia! O frágil "rigor" de papai era adoçado na minha infância pelas cavalgadas que com ele fazia em suas idas até o Morro-Redondo, de sua propriedade, para nos períodos invernosos ver a evolução dos roçados e o pastoreio das vacas e caprinos nos campos de pasto.
Guardo na memória as informações transmitidas por ele durante o tropel do cavalo no percurso entre a Palma e a fazenda; falava sobre as serpentes, raposas, guaxinins, onças e outros animais. Diante de minha curiosidade infantil descrevia seus modos de vida e defesa. As aves, estas eram comentadas com severa recomendação a ser cumprida: de nunca atirar nas aves através de baladeiras, instrumento proibido, cuja determinação haveria de ser cumprida. Na nossa casa não tinha baladeiras. Não lembro de ter "assassinado" um pássaro.
O descortino das coisas do mundo descritas por ele ia desde as normas comportamentais, os estudos e os horários. Menino ainda de 12 anos, vim com ele pela primeira vez a Fortaleza, a cidade grande, no ônibus da Expresso de Luxo, um Fargo que partia de Sobral, alguns vindos de Teresina, para uma consulta médica. Nos hospedamos na Pensão Napoleão, na Rua Senador Pompeu. Chegamos numa noite e no dia seguinte, após o café matinal, fomos à consulta com o doutor. Após a consulta, papai, no intuito de agradar-me, perguntou: – Galba o que preferes, subir num arranha-céus ou ver o mar? De pronto respondi que queria ver o mar. Aí aconteceu um dos momentos que nunca consegui esquecer: fomos até a Praça do Passeio Público; era uma tarde verão, creio que outubro ou novembro, o azul infindo do mar deixou-me extasiado e emocionado. Ao lado, relembro a felicidade de papai a descrever, diante de minha admiração, que o mar terminava em outras terras muito distantes.
Esta remota imagem é inesquecível, assim como a satisfação dele de ter proporcionado esta encantadora emoção. Assim são os papais, diferentes, unos, justos, solidários e o forte protetor dos filhos.
Feliz dia do papai a todos que já se foram e aos que ainda estão presentes, simples ou sofisticados... 

Galba Gomes 
Membro da APL

P.S.: A foto, de forma deliberada, mostra outros tempos em que as pessoas ofertavam aos amigos com dedicatória. Meu Pai era Deusdedit Gomes Fontenele.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

SERTÃO


Nessa terra ressequida, 
Tantas vezes esquecida, 
Pouca água cai no chão; 
De um povo resistente, 
Desde muito padecente 
Das agruras da estação. 

Gente pobre oprimida, 
Generosa e destemida, 
De Luiz, rei do Baião; 
Do forró, da simpatia; 
De prece e de valentia: 
Padim Ciço e Lampião. 

Terra do roceiro bravo, 
Da peleja qual escravo, 
Do vaqueiro de gibão. 
Terra de tanta poesia, 
De viola e cantoria, 
Da festa de apartação. 

Terra do caboco pardo, 
Agarrado em duro fardo 
Nas lidas da plantação; 
De um povo inteligente, 
E de mulherio decente; 
De Lunga e Frei Damião. 

Berço da mãe heroína, 
E da doce cajuína, 
De Alencar e de Tristão. 
Terra de bastante glória, 
A mais fértil da história, 
Conhecida por Sertão.

Eliton Meneses

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ACENTO DA EXCEÇÃO

Que a explicação seja breve:

afadiguei-me de emoções caladas
a desrazão traduzida/barrada
não cessa de ser a exceção
acentuada.

Benedito Rodrigues
Membro da APL

terça-feira, 29 de julho de 2014

PROSA COM A LETRA P


Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor, português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai, para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. - Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo. - Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? - Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando... Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto pararei.

Cláudio César 
Engenheiro Agrônomo